“Quando a terra se cansa de esperar – Agricultores em Marcha lenta em Serpa”

Sexta-feira, 2 de Outubro, Serpa, os agricultores da margem esquerda do Guadiana saíram para a estrada numa marcha lenta de protesto contra o aumento dos custos de produção e contra a falta de condições para manter as explorações agrícolas.

Marcha lenta, sim… porque neste País até os tractores já perceberam que, para conseguir alguma coisa do Estado, é preciso ter paciência, muita paciência.
Primeiro vem o requerimento, depois o despacho, depois o parecer, depois a comissão… e, se tudo correr bem, chega finalmente a promessa, porque a promessa, essa, chega sempre.
Mas o problema é muito mais profundo.

Portugal passou décadas a falar de modernização, inovação e futuro, enquanto o Sector Primário foi sendo empurrado para o canto da fotografia, porque em 1974, cerca de 35% da população empregada trabalhava no sector primário; hoje, essa percentagem ronda apenas 2,3%.

É claro que a tecnologia e a transformação económica explicam parte desta evolução, mas, também, existe envelhecimento dos agricultores, falta de renovação geracional, custos de produção elevados, burocracia e dificuldades de rentabilidade.
E aqui começa a parte verdadeiramente cómica da nossa política, todos adoram o agricultor, sobretudo quando chega a época das feiras.
Aparecem ministros, secretários de Estado, deputados e candidatos, come-se uma bifana, prova-se um queijo, bebe-se um copo de vinho, tira-se uma fotografia junto ao tractor e proclama-se solenemente: “A agricultura é estratégica!”
Depois acaba a feira.
E o agricultor volta para casa… sozinho com as contas.

O próprio Primeiro-Ministro Luís Montenegro afirmou que a agricultura, as pescas e todo o Sector Primário são estratégicos para o futuro de Portugal, pela sua importância na autonomia alimentar, na economia e na coesão territorial.
Muito bem!

Mas há uma pergunta incómoda, se é estratégico, porque continua tantas vezes a ser tratado como se fosse descartável?
Até Ursula von der Leyen reconheceu que os agricultores enfrentam custos elevados, burocracia e concorrência, defendendo que devem receber um preço e um lucro justos pelo seu trabalho, mas assinou o tal Acordo MERCOSUL, tão prejudicial para os Agricultores Europeus.
E Ban Ki-moon, já alertava para a importância de investir na agricultura como condição da segurança alimentar.

Portanto, não estamos perante agricultores “resmungões”, estamos perante uma questão de soberania, porque podemos discutir transição energética, sustentabilidade, alterações climáticas e justiça social e devemos fazê-lo, mas existe uma pequena realidade que alguns gabinetes parecem esquecer,
as pessoas continuam a ter de comer??
E não há transição verde que sobreviva a uma agricultura destruída.
Não se produz alimentos com discursos.
Não se paga gasóleo com ideologia.
Não se compra fertilizante com aplausos.
E não se mantém uma exploração agrícola apenas com fotografias para as redes sociais.

Portugal tem terra, tem sol, tem conhecimento, tem agricultores e, em várias regiões, tem água, o que falta, demasiadas vezes, é uma política que trate quem produz como parte da solução e não como um incómodo administrativo.

Enquanto isso, importamos cada vez mais alimentos, o défice comercial alimentar português tinha passado de 1.148 milhões de euros em 2014 para 3.647 milhões em 2023, ou seja, enquanto alguns discutem quem tem a melhor teoria económica, a factura vai chegando pelo supermercado.

É uma extraordinária engenharia económica, deixamos de produzir, importamos, pagamos mais caro e depois fazemos uma conferência para explicar porquê!
O Sector Primário não é o passado.
É a base do futuro.
Agricultura, pescas, floresta e produção de matérias-primas significam economia, emprego, território, população e, acima de tudo, soberania.

Por isso, quando os agricultores de Serpa colocam os tractores na estrada, talvez devêssemos escutar para além do barulho dos motores.

Aquilo não é apenas uma marcha lenta.
É um aviso.
Porque enquanto houver agricultores dispostos a semear, Portugal ainda produz futuro.

Mas quando a terra deixar de produzir, podemos continuar a fazer discursos, planos, conferências, leis e promessas.

Haverá apenas um pequeno problema, discursos não se comem e, talvez, nesse dia, percebamos finalmente que desprezar o Sector Primário não foi apenas um erro político.

Foi o mais caro erro económico que um País pode cometer, descobrir o valor daquilo que tinha… quando já não o tem.

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