Portugal abaixo da média da OCDE em quase todos os indicadores de saúde

Portugal tem valores inferiores à média internacional em quase todos os indicadores de resultados em saúde e as diferenças são mais destacadas nos grupos mais visíveis, conclui um estudo hoje divulgado.

© D.R.

O Patient Reported Indicators Surveys (PaRIS), o maior inquérito internacional aplicado a utilizadores de serviços de saúde, revela que os aspectos mais negativos de Portugal se referem à percepção de saúde da população e à coordenação dos cuidados.

Os dados mostram para Portugal um desempenho bastante inferior à média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) nos vários domínios avaliados: saúde física, saúde mental, funcionamento social, bem-estar e saúde geral. Em todos estes indicadores, os resultados nacionais são os mais baixos, ou próximos dos mais baixos, entre os países participantes.

Nos idosos, mulheres e pessoas com baixa escolaridade ou em privação económica, as diferenças nacionais são mais acentuadas face aos restantes países incluídos no PaRIS, coordenado pela OCDE e, em Portugal, pela Direção-Geral da Saúde (DGS).

Os dados mostram “disparidades importantes” em função do género, idade, escolaridade e rendimento, sendo que as mulheres, pessoas com 75 ou mais anos, com escolaridade até ao 9.º ano e aquelas em situação de privação económica reportam piores resultados em saúde e experiências no contacto com o sistema.

“Esta realidade requer políticas de inclusão, capacitação profissional e respostas diferenciadas e adaptadas para pessoas em maior vulnerabilidade”, consulte os autores.

Os dados relevantes que menos de metade das pessoas que vivem com doença crónica em Portugal dizem ter uma boa saúde geral e quase quatro em cada 10 em risco de depressão clínica.

No domínio da experiência com os cuidados de saúde, os resultados aproximam-se dos meios de comunicação da OCDE, mas persistem “fragilidades concretas na progressão”, dimensão em que metade dos usuários estão insatisfeitos e metade dos profissionais regulares não estão preparados para articular eficazmente com outros assuntos de saúde.

Os dados revelam ainda “lacunas estruturais” nos Cuidados de Saúde Primários (CSP): fraca coordenação entre níveis de cuidados, baixa cobertura dos planos individuais de cuidados, apoio insuficiente à autogestão e canais de comunicação desatualizados.

Embora todas as unidades utilizem registo eletrónico, o estudo refere que persistem “desafios de interoperabilidade, acesso remoto e integração com outros discutidos” e que a oferta de videoconsultas é muito limitada, comprometendo acessibilidade, continuidade e eficiência de cuidados.

Apontam igualmente “desafios estruturais” que condicionam a capacidade de cooperação do CSP, como a falta de um profissional específico para garantir a progressão dos cuidados ao longo do percurso assistencial do doente e a partilha reduzida de dados.

A articulação com os cuidados hospitalares, continuados, paliativos e de saúde mental também é “frágil e incompleta”, consulte os autores, considerando que isto pode comprometer a continuidade assistencial.

Os especialistas lembram que o número de pacientes crônicos continua a aumentar, insistindo na urgência de adaptar os sistemas de saúde às necessidades destas pessoas.

Face a este diagnóstico, o estudo PaRIS aponta três eixos estratégicos de mudança: a transformação digital, para garantir a modernização dos canais de comunicação; a personalização da resposta assistencial, atribuindo um gestor de cuidados a cada utilizador e reforçando o apoio à autogestão da doença; e o reforço da confiança no sistema, o que exige a medição da experiência dos usuários e um “investimento consistente” na prevenção e na alfabetização em saúde.

O PaRIS conta com a participação de 19 países. Em Portugal, escolheram 11.744 usuários (com 45 anos ou mais) e 80 unidades de CSP.

Permitiu analisar 10 indicadores-chave, cinco relativos a resultados em saúde (saúde física, saúde mental, funcionamento social, bem-estar e saúde geral) e cinco relativos à experiência dos usuários, entre eles a confiança na gestão da própria saúde, a coordenação de cuidados e a confiança no sistema de saúde.

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