Rumo a uma Utopia Distópica

O título deste artigo tem como finalidade elementar chamar a atenção do leitor para uma
certa ambiguidade complexa e sobretudo provocadora. Provocadora porque desde que me
entendo por gente tenho escutado, observado e essencialmente refletido sobre os
discursos pomposos, floreados e completamente alienados da realidade que os nossos
governantes têm tido a gentileza de nos bombardear ao longo das últimas décadas.
Este breve enquadramento, bem como o título em apreço, remete-me para um período
embebido em promessas falaciosas embaladas em utopia: a entrada em circulação das
notas e moedas de euro em janeiro de 2002 em Portugal. António Guterres, então primeiro-
ministro, declarava o seu «orgulho em ser português» na sequência da Cimeira Europeia,
sublinhando que o euro seria um «cimento» para a comunidade europeia.
Recordo-me que um euro equivalia a duzentos escudos. Um café que custava cinquenta
escudos passou a custar cinquenta cêntimos — o que equivalia a cem escudos. Através
desta humilde recordação percebe-se facilmente que, a partir dessa senda, Portugal
caminhou a passos largos para o abismo financeiro e comercial. Diversos setores da
sociedade arredondaram para cima a conversão dos bens de consumo e serviços,
enquanto os salários e pensões foram fielmente convertidos para o montante anterior ao
euro. Os portugueses nunca mais recuperaram o poder de compra que tinham antes.
Ainda que corra o risco de algum embaraço, gostaria de convidar o leitor a refletir sobre o
parágrafo anterior e como ele se espelhou — e ainda se espelha — na perda de atratividade
de certas profissões-chave da nossa sociedade, como os profissionais de saúde, as Forças
Armadas ou as Forças de Segurança. Atualmente, mesmo com recentes aumentos
salariais nestes setores, o custo de vida em Portugal é demasiado elevado. Podemos
afirmar com relativa segurança que os valores dos bens de consumo nos supermercados
britânicos se aproximam dos praticados cá. Com a agravante de que o salário médio
semanal líquido no Reino Unido ronda as 600 libras, enquanto em Portugal o salário médio
mensal líquido é de cerca de 1.300 euros. Esta comparação explica por que tantos jovens
portugueses pretendem migrar para o estrangeiro, onde podem viver — em vez de apenas
sobreviver, como a maioria faz mensalmente.
Como se a perda de jovens qualificados não bastasse, gostaria ainda — na esfera da nossa
maravilhosa «utopia distópica» — de partilhar que as nossas residências seniores estão
cada vez mais povoadas por utentes estrangeiros, cujos quartos custam 2.000 euros por
mês. É incrível, mas curioso. Num contexto de crescente precariedade sénior, o CHEGA
propôs no OE para 2026 um aumento das pensões até 1.567,50 euros (3x IAS).
Esta medida elementar de justiça intergeracional foi chumbada pelo governo. O chumbo
evidencia a falta de prioridade à dignidade de quem dedicou uma vida ao país,
contrastando com os preços das residências sénior que tornam impossível até um quarto
básico para quem aufere a pensão média de 730 euros líquidos. Este é o vergonhoso rumo
utópico-distópico que caminhamos, em que os governantes nos embalam com discursos
fantasiosos enquanto na realidade nos dão uma mão cheia de nada.

Artigos do mesmo autor

Atualmente, já se pode afirmar, com relativa segurança que já não existe a ferrenha aversão quando um conhecido, amigo ou familiar se filia ao CHEGA. Já não é um tema tabu como o era em 2019. As pessoas já não correm o risco de serem excomungadas, enxovalhadas ou gozadas por demonstrarem abertamente os seus ideais […]

Poderia optar por uma retórica mais inflamada para captar atenções imediatas, mas o respeito e a profunda solidariedade devidos a estes heróis, impõem-me começar com um verso da obra de La Mort du Loup, Les Destinées (1864) de Alfred de Vigny: “[…] Gemir, chorar, rezar é igualmente cobarde. Executa energicamente a tua longa e pesada […]

Antes do surgimento do Partido CHEGA em abril de 2019, o Partido Socialista (PS) e o Partido Social Democrata (PSD) atuavam com impunidade, fazendo vista grossa a todo e qualquer escândalo de corrupção que envolvesse os seus militantes. Em vez de os afastarem, protegiam-nos a todo o custo, puxando todos os necessários cordelinhos para abafarem […]

Sem querer alongar sobre o motivo que me levou a recorrer às urgências do Hospital de São Francisco Xavier no dia 01 de dezembro, nem sobre as diversas horas que tive de aguardar até ser diagnosticado e tratado (muito em parte devido ao aumento significativo da procura por utentes não residentes). Queria em vez disso, […]

Ao longo destes últimos seis anos o Partido conseguiu emergir da neblina da dúvida e do medo, constantemente difundida pelos Media, com o apoio dos tradicionais movimentos sociais e das demais elites. Foi um trabalho moroso e árduo, mudar a mentalidade das pessoas, explicar que os últimos 50 anos, que teriam vivido em um ambiente […]