Montijo e o rio

O Montijo e o Tejo mantiveram ao longo da História uma relação umbilical e simbiótica que podemos atestar por variadı́ssimos testemunhos que vão desde o próprio desenvolvimento urbano do casco antigo até ao recente “bota a baixo” do novo e belo bote de fragata “Aldeano” que ocorreu no passado Domingo, 15 de maio.

Todavia, fruto de decisões polı́ticas que ainda hoje suscitam discussão, tal relação foi seriamente afetada quer pela mudança de cais fluvial de embarque para Lisboa que passou a estar 5 km a jusante da cidade, quer por um desenvolvimento urbano que tendo esquecido o rio, vem sendo marcado pela falta de planeamento de longo prazo e por critérios assentes nos ciclos eleitorais.

Permanece inalterada e esquecida a belı́ssima baı́a do Montijo, a montante do Cais do Seixalinho que proporciona vistas magnı́ficas sobre o espelho de água bordejado pelo casario, vegetação e ao fundo a Serra da Arrábida. Em contrapartida a cidade de Montijo vem conhecendo uma rápida e explosiva expansão urbana, em grande parte devido à proximidade da capital.

O Montijo deveria ter um plano de longo prazo para o desenvolvimento da extensa área que bordeja o rio hoje ocupada por zonas de sapal, antigas salinas e terrenos baldios que fazem parte da reserva ecológica nacional.

É um desı́gnio que deveria ser abraçado com paixão e determinação pelo executivo da Câmara Municipal sendo que o que há a fazer é tanto e tão complexo que seria como desfazer um nó de uma entrançada meada.

Quando vim viver para o Montijo, nos tempos da Presidente Jacinta Ricardo, lembro-me de ter visto uma maquete do Montijo, incluindo toda a zona ribeirinha a montante do Seixalinho que incluı́a zonas várias de lazer, das quais recordo uma zona em que seria possı́vel fazer passeios a cavalo. Depois dessa maquete não me recordo de ter visto mais nada em plano, maqueta ou projeto. Tudo permanece inalterado nessa zona e entretanto a cidade vai-se estendendo para o interior, numa sucessão de prédios que deixa dúvidas quanto ao planeamento da urbe: onde estão as praças, as escolas, os jardins e outros equipamentos que qualiicam as cidades?

Os planos e projetos para devolver o Montijo ao rio seriam muito importantes, para fixar uma visão de longo prazo para toda a zona que seja consensual e independente dos ciclos eleitorais.

O imobilismo a que se assiste relativamente ao desenvolvimento ribeirinho poderia, entretanto, ser alterado com pequenas iniciativas que rompessem com este bloqueio.

Passarei a citar algumas, de entre as possı́veis, que não seriam difı́ceis de concretizar, havendo vontade polı́tica para tal.
Em primeiro lugar penso que seria muito importante promover o desassoreamento, melhor dizendo a drenagem do lodo da baı́a do Montijo. Hoje esta extensa baı́a que terá cerca de 25 km quadrados, está cheia de lodo, bem visı́vel na maré vazia, proveniente da escorrência das águas pluviais e isto em parte porque a bacia, ou mais concretamente a cala, deixou de ser dragada desde a referida mudança de cais que ocorreu há mais de 20 anos. A drenagem de lodo é importante, para permitir o usufruto permanente de atividades náuticas, hoje só possı́veis de realização nos perı́odos de maré cheia.

A dragagem é uma operação muito cara e aı́ temos a razão pela qual deixou de se fazer. Seria, todavia, possı́vel afetar à realização de atividades turı́sticas na baı́a, um ou mais barcos a turbina, da famı́lia dos catamarans que têm sido usados pela Transtejo e desta forma realizar simultaneamente o revolvimento do chão do rio, graças ao efeito de turbilhão que as turbinas provocam. Esse revolvimento retiraria as partı́culas de lodo do leito do rio, as quais icariam em suspensão nas águas da maré cheia e seriam escoadas para fora da bacia pelo efeito da vazante da maré.

Estamos num momento em que a Transtejo renova a sua frota, substituindo os barcos turbinados por outros elétricos e a hélice. Por que não uma Parceria Público Privada para afetar um ou mais barcos turbinados a uma atividade de passeio turı́stico na baı́a?

Havendo boa vontade polı́tica, tal iniciativa, seria a concretização da hipó tese de ir desassoreando a baı́a sem custos para o erário pú blico. Com a baı́a a ostentar um espelho de água permanente, e não apenas na maré cheia, muito mais atividades náuticas poderiam ter lugar e com isto criar-se-ia um pó lo de realização de atividades económicas que impactariam toda a região.

Duas outras iniciativas fáceis de realização poderiam ter lugar rapidamente, dando-se um sinal de restauro da relação entre o Montijo e o rio: a limpeza da bacia de retenção de águas pluviais e retorno da prática de vela na mesma e o arranjo da ponte móvel do Cais das Faluas.

Quanto à bacia de retenção, é de recordar que já esteve afetada à aprendizagem de vela com grande sucesso por se tratar de um espaço relativamente amplo e coninado o que proporciona condições de segurança ideias. Porém uma descarga de resı́duos tóxicos não autorizada foi feita na bacia e desde essa altura a atividade foi interditada. Urge restabelecer as condições para a referida prática desportiva e dotar a bacia de meios para impedir que estas descargas possam vir a repetir-se.

Quanto à ponte móvel do Cais das Faluas, consta que deixou de funcionar o mecanismo que a permitia alçar-se e assim permitir a navegação de embarcações até ao Cais. Recorde-se que está pronto a funcionar e fundeado no Cais das Faluas um barco restaurante, iniciativa de um conhecido empresário do Montijo. Está, contudo, o barco restaurante impedido de navegar devido ao emperramento da ponte.

O arranjo do mecanismo seria um pequeno investimento, um sinal de quebra do bloqueio a que o rio tem estado sujeito, porque permitiria a operação do barco, certamente algo que vai atrair a curiosidade de todos e promover um novo olhar sobre o rio.

Haverá, certamente muito mais ideias que poderão contribuir para restaurar a ligação do Montijo ao Tejo. A escuta dos cidadãos sobre este assunto por parte dos poderes instituı́dos seria outra vertente de uma polı́tica pública que se quer participativa e com o contributo de todos.

Resta-nos esperar, enquanto cidadãos do Montijo, que os referidos, recém instituı́dos, poderes abracem o desı́gnio fluvial com a paixão e determinação que essa missão merece.

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