Tribunal de Lisboa liberta cabecilha do PCC procurado por lavagem de milhões do narcotráfico após falha na lei portuguesa

“Hulk”, procurado no Brasil por lavagem de dinheiro e ligações ao Primeiro Comando da Capital, saiu em liberdade depois de a Justiça considerar existir um vazio legal no processo de extradição.

© D.R.

Ygor Daniel Zago, conhecido como “Hulk” e apontado pelas autoridades brasileiras como um dos homens ligados ao topo financeiro do Primeiro Comando da Capital (PCC), foi libertado pelo Tribunal da Relação de Lisboa devido a uma falha na lei portuguesa relacionada com pedidos de asilo e processos de extradição.

Segundo o Correio da Manhã, o brasileiro de 44 anos tinha sido detido pela Polícia Judiciária em novembro de 2025, perto de um condomínio de luxo em Cascais, quando saía para o ginásio. Na altura, acabou transferido para a cadeia de Monsanto, depois de o tribunal decretar prisão preventiva.

Segundo as autoridades brasileiras, era a partir de Portugal que “Hulk” continuava alegadamente a coordenar operações de lavagem de dinheiro ligadas ao PCC, uma das maiores organizações criminosas da América do Sul. O suspeito vivia num apartamento de luxo em Cascais, pelo qual pagava cerca de sete mil euros mensais.

A Justiça brasileira procura Ygor Zago por suspeitas de branqueamento de capitais, associação criminosa e envolvimento num esquema milionário ligado ao tráfico de droga e à fraude dos combustíveis no Brasil.

O nome de “Hulk” aparece associado ao chamado “esquema do metanol”, uma fraude de milhões que envolvia a adulteração de combustíveis e a infiltração do PCC no mercado brasileiro. As autoridades acreditam ainda que o suspeito teve um papel importante na lavagem internacional do dinheiro gerado pelo narcotráfico.

Em 2014, chegou mesmo a ser condenado a 29 anos de prisão por participação num esquema internacional de tráfico de droga entre o PCC e grupos criminosos dos Balcãs. Apesar disso, permaneceu em liberdade durante anos.

Depois da detenção em Portugal, Ygor Zago avançou com vários recursos para tentar impedir a extradição para o Brasil. Um dos mecanismos utilizados foi um pedido de asilo apresentado à AIMA.

Embora esse pedido tenha sido recusado, o recurso apresentado no Tribunal Administrativo continua pendente. E foi precisamente aí que surgiu o problema jurídico agora identificado pelo Tribunal da Relação de Lisboa.

Segundo explicou o próprio tribunal, a lei portuguesa determina que um pedido de asilo suspende o processo de extradição até existir decisão definitiva. No entanto, a legislação não prevê a suspensão do prazo máximo da prisão preventiva durante esse período.

Na prática, Portugal ficou impedido de extraditar “Hulk”, mas também sem base legal para continuar a mantê-lo preso além do limite previsto na lei.

Face a esse vazio jurídico, o Tribunal da Relação de Lisboa ordenou a libertação do alegado cabecilha do PCC esta quarta-feira.

Apesar de sair em liberdade, Ygor Zago ficou obrigado a apresentações diárias na PSP de Cascais, entregou o passaporte e está proibido de abandonar território nacional.

A decisão está já a gerar forte polémica, tendo em conta o historial criminal atribuído ao suspeito e a dimensão das acusações que enfrenta no Brasil.

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