No próximo dia 23 de agosto, os cidadãos do Cazaquistão serão chamados às urnas para eleger os 145 deputados do novo Parlamento, designado Qurultai, num momento que poderá marcar uma nova etapa da evolução política e constitucional do país.
As eleições realizam-se após a aprovação da nova Constituição, através de um referendo nacional, e representam uma das mais profundas reformas institucionais desde a independência do Cazaquistão, em 1991.
A escolha da palavra Qurultai para designar o novo Parlamento não foi feita por acaso. Este conceito tem raízes profundas na história da Ásia Central e remonta às antigas assembleias das estepes, onde os líderes se reuniam para discutir questões relacionadas com o governo e o futuro das comunidades.
Mas o Cazaquistão não pretende recuperar um modelo político do passado. Pelo contrário, procura adaptar a sua herança histórica às exigências de um Estado moderno, criando uma instituição parlamentar baseada no sufrágio universal, no voto direto e na participação dos cidadãos.
Esta decisão transmite uma mensagem política importante: a modernização não implica o abandono da identidade nacional.
Nos últimos meses, a imprensa cazaque tem destacado o aumento da participação política, o reforço da representação dos diferentes setores da sociedade e o aparecimento de novos candidatos neste processo eleitoral.
Naturalmente, qualquer processo de reforma política deve ser acompanhado com sentido crítico e analisado ao longo do tempo. A consolidação democrática não se faz apenas através da realização de eleições, mas também através da capacidade de garantir instituições sólidas, transparência e uma participação efetiva dos cidadãos.
No entanto, analisar o atual momento do Cazaquistão apenas numa perspetiva interna seria um erro.
A localização geográfica do país confere-lhe uma importância estratégica cada vez maior. Situado entre a Rússia, a China, o Mar Cáspio e os restantes países da Ásia Central, o Cazaquistão ocupa uma posição central numa região que está a assumir um papel determinante na reorganização das cadeias globais de comércio e de abastecimento.
O chamado Corredor do Meio, que liga a Ásia à Europa através do Mar Cáspio, transformou-se numa das principais alternativas para o transporte de mercadorias entre os dois continentes.
Mas o interesse europeu pelo Cazaquistão não se limita à logística.
A energia, as matérias-primas críticas, as energias renováveis, a inovação tecnológica, a investigação científica e a digitalização são áreas que apresentam um enorme potencial de cooperação.
O partido Amanat, a principal força política do país, continua a desempenhar um papel central neste processo de transformação. Historicamente associado ao antigo Presidente Nursultan Nazarbayev, o partido tem procurado adaptar-se a uma nova realidade política, defendendo um modelo baseado na estabilidade institucional, no desenvolvimento económico e na modernização gradual do Estado.
Independentemente das diferentes sensibilidades políticas existentes, é inegável que o Cazaquistão está a atravessar um período de mudança que merece ser acompanhado com atenção.
Portugal deve observar atentamente estas transformações.
Não apenas porque o Cazaquistão é o maior país da Ásia Central, mas também porque poderá assumir um papel cada vez mais relevante para a União Europeia, tanto no domínio económico como no plano geopolítico.
Enquanto Presidente do Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Cazaquistão da Assembleia da República, considero que este é o momento certo para reforçar as relações entre os nossos países.
A cooperação económica, a investigação científica, a educação, a inovação tecnológica e o intercâmbio cultural podem abrir novas oportunidades para Portugal e para o Cazaquistão.
As eleições de agosto serão, certamente, um importante teste ao novo modelo constitucional do país.
Mas representam também algo mais profundo: a capacidade de uma nação preservar a sua identidade histórica enquanto constrói instituições capazes de responder aos desafios do século XXI.
Talvez seja essa a principal mensagem do novo Qurultai: utilizar o passado como uma ferramenta para construir o futuro