Portugal à deriva: milhões para grandes projetos e respostas que continuam a faltar

Há momentos em que as notícias deixam de parecer acontecimentos isolados e começam a formar um retrato mais amplo do país. A polémica em torno da REN, a compra das novas fragatas para a Marinha, os problemas e controvérsias que envolvem o Ministro da Administração Interna, as dificuldades no acesso à Saúde, as dúvidas sobre a sustentabilidade da Segurança Social e, agora, mais uma vez, a eterna questão do aeroporto de Lisboa. São assuntos diferentes, naturalmente, mas onde existe um denominador comum que não consigo deixar de identificar: Portugal continua a movimentar enormes quantidades de dinheiro, a anunciar grandes investimentos e a discutir projetos de dimensão nacional, enquanto muitos cidadãos continuam a sentir que as respostas mais básicas chegam tarde, chegam mal ou simplesmente não chegam.

Não é preciso dizer que Portugal está falido ou à beira do caos para fazer esta crítica. Não está. Uma análise séria tem de reconhecer os bons indicadores económicos quando eles existem e não transformar qualquer dificuldade num cenário de catástrofe. Mas também não podemos utilizar esses indicadores como uma espécie de certificado de que tudo funciona bem. Há um país que aparece nos números e outro que existe na vida quotidiana, onde as famílias continuam a enfrentar custos elevados com habitação, alimentação e energia, onde os serviços públicos revelam dificuldades e onde cada vez mais pessoas começam a perguntar se aquilo que pagam ao Estado corresponde realmente àquilo que recebem em troca.

Veja-se o caso da REN. O Estado decidiu adquirir, através da Parpública, 13,7% da empresa por cerca de 380 milhões de euros, uma participação que pertencia à Pontegadea, o grupo de investimento de Amancio Ortega, proprietário da conhecida Zara. O empresário espanhol tinha entrado na REN em 2021 e agora vende ao Estado português a sua posição com uma valorização significativa. Do ponto de vista de um investidor privado, é um negócio perfeitamente compreensível: comprou, esperou e vendeu quando encontrou quem estivesse disposto a pagar. A questão começa precisamente do outro lado da operação, uma vez que quem compra agora é o Estado.

A justificação é estratégica e tem alguma lógica. A REN gere infraestruturas críticas para o país e depois de acontecimentos como o apagão ibérico de 2025, a importância da segurança energética tornou-se ainda mais evidente. Mas se hoje consideramos essa infraestrutura tão estratégica, não deixa de ser legítimo perguntar por que razão o Estado se afastou anteriormente da empresa e agora regressa pagando um prémio significativo pela participação adquirida. O Governo considera que os cerca de 380 milhões são justificados pela dimensão da posição e pela influência que ela permitirá exercer. Pois então que o explique de forma clara aos portugueses. Quanto vai render este investimento? Que influência concreta terá o Estado? Qual é a estratégia para o futuro? E sobretudo, porque é que uma participação que antes deixou de ser considerada necessária passou agora a ser suficientemente importante para justificar centenas de milhões de euros?

Portanto o Estado vai desembolsar 380 milhões de euros. E quem financia o Estado são os contribuintes. É por isso que a discussão não deve terminar na palavra “estratégico”.

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