Ontem não caiu apenas uma moção de censura. Caiu a máscara de quase todos os partidos representados na Assembleia da República.
A moção de censura apresentada pelo CHEGA foi rejeitada. Como já era esperado, os 60 deputados do CHEGA foram os únicos a votar a favor da própria iniciativa. PSD, CDS, Iniciativa Liberal, Livre e PAN votaram contra. PS, PCP, Bloco de Esquerda e JPP refugiaram-se na confortável abstenção. O resultado foi claro: o Governo ficou de pé e Luís Neves manteve-se protegido politicamente.
Mas o que aconteceu ontem foi muito maior do que uma votação.
O PSD escolheu proteger o ministro, não proteger Portugal
Luís Montenegro teve uma oportunidade simples: afastar um ministro envolvido em polémicas e permitir que as instituições respirassem credibilidade. Preferiu fechar os olhos.
Quando um Governo escolhe proteger pessoas em vez de proteger instituições, perde autoridade moral para falar de transparência, ética ou confiança.
O PS fez teatro. Muito discurso, zero coragem.
José Luís Carneiro passou dias a criticar Luís Neves. No Parlamento falou de responsabilidades, de exigência democrática e de escrutínio.
E depois… absteve-se.
A abstenção é a forma mais confortável de fugir à responsabilidade. Nem derruba o Governo, nem o responsabiliza. É a política do “parecer contra sem votar contra”. Uma oposição que protesta para as câmaras e protege o sistema quando chega o momento da verdade.
A Iniciativa Liberal mostrou onde está.
Fala de liberdade. Fala de exigência. Fala de Estado de Direito.
Mas quando chegou a hora de exigir responsabilidades ao Governo, votou contra a censura e alinhou com o poder instalado. A estabilidade serviu de desculpa para manter tudo exatamente igual.
PCP e Bloco? A indignação tem prazo de validade.
Durante anos apresentaram-se como campeões da fiscalização ao poder.
Ontem escolheram a abstenção. Quando o alvo é um Governo que lhes convém manter em funções, a revolução fica suspensa.
Livre e PAN continuam especialistas em moral seletiva.
São rápidos a dar lições de ética aos portugueses. Mas perante um caso que abalou a confiança nas instituições, correram para votar ao lado do Governo.
A coerência desapareceu ao primeiro toque da campainha do Parlamento.
Só o CHEGA ficou sozinho.
Sessenta deputados. Sozinhos.
Sozinhos a dizer que um ministro sob tanta pressão política já não reunia condições para permanecer em funções. Sozinhos a assumir o custo político de apresentar uma moção que todos sabiam ter chumbo anunciado.
Porque há momentos em que a política não se mede pelos votos que ganha. Mede-se pela coragem de enfrentar um sistema inteiro.
O Parlamento venceu. Portugal perdeu.
Ontem ficou provado que existe um bloco de conveniência.
Uns votam contra.
Outros abstêm-se.
Mas o resultado é exatamente o mesmo: proteger o poder, salvar o Governo e deixar os portugueses a assistir ao espetáculo da hipocrisia.
Falam de ética quando lhes convém.
Falam de instituições quando lhes dá jeito.
Mas quando chega o momento de escolher entre a verdade e a disciplina partidária, escolhem sempre o poder.
A moção foi rejeitada. A pergunta continua de pé:
Quem censura um Governo que já deixou de censurar os seus próprios erros?
Portugal viu a resposta. E dificilmente a esquecerá.