“CEUTA, a nova porta giratória da Europa: entram dezenas de milhares, saem explicações… e a fronteira fica a pedir desculpa!”

Há momentos em que a História parece possuir um sentido de humor particularmente cruel, pois no dia 30 de Julho de 2026, enquanto Madrid celebrava, através da representação diplomática marroquina, o Dia do Trono de Mohamed VI, Ceuta assistia a uma espécie de edição migratória do “Dia de Portas Abertas”, onde dezenas de milhares de pessoas atravessavam a fronteira a partir de Marrocos.
Primeiro falaram-se em 50 ou 60 mil, depois, as autoridades espanholas chegaram a rever a estimativa para cerca de 72 mil entradas e aqui começa a comédia, se não fosse tão séria, porque o CNI (Centro Nacional de Inteligência Espanhola) tinha avisado, onde documentos, agora tornados públicos, revelam alertas nos dias anteriores, incluindo referências ao risco de entradas irregulares precisamente em torno do Dia do Trono.
O relatório de 29 de julho falava de um “potential risk” de entradas em Ceuta e Melilla e, a fronteira, aparentemente, recebeu o aviso, só não recebeu a mesma atenção que recebeu a festa.

Depois veio o espetáculo, onde a Guarda Civil e as Forças de Segurança foram confrontadas com uma pressão humana de dimensão extraordinária, o Exército acabou mobilizado, houve mortos, feridos e uma emergência humanitária e, Ceuta, com pouco mais de 80 mil habitantes, viu chegar num curto espaço de tempo uma quantidade de pessoas próxima da sua própria população.

Pedro Sánchez, que em 2021 prometera que “vamos defender a nossa integridade territorial, as nossas fronteiras”, viu-se agora obrigado a classificar o episódio como uma “violação da integridade territorial” de Espanha, o que é uma frase bonita, patriótica, quase imperial, pena é que a realidade tenha chegado antes dela.

E Marrocos? Rabat rejeitou categoricamente ter provocado ou facilitado a vaga, apontando, entre outras causas, para uma decisão judicial espanhola e para a acção das redes de tráfico, mas eis, uma vez mais, a pergunta incómoda que permanece, como pode uma concentração desta dimensão desenvolver-se junto de uma fronteira altamente controlada sem que as autoridades marroquinas saibam, prevejam ou consigam impedir? Não é uma acusação, é precisamente a pergunta que uma Diplomacia adulta deveria exigir que fosse respondida.

E há uma ironia suplementar, Ursula von der Leyen considerou as imagens de Ceuta “inaceitáveis” e afirmou: “Não podemos permitir que ninguém entre na nossa União sem respeitar as nossas regras.” e Friedrich Merz foi igualmente claro: “A proteção das fronteiras externas da União Europeia é decisiva para combater a migração ilegal.”
Finalmente, 22 líderes europeus advertiram contra “cruzamentos em massa descontrolados” e contra a instrumentalização da migração como instrumento de pressão, em resumo, os pseudo líderes Europeus a serem os Hipócritas do costume!

Ora, aqui chegamos ao verdadeiro problema político, se a migração pode ser instrumentalizada, ainda que não esteja provado que o tenha sido neste caso, então uma fronteira europeia deixou de ser apenas uma linha no mapa para passar a ser uma variável da política externa e, isso, é perigosíssimo, porque Marrocos sabe que Ceuta é uma ferida diplomática aberta, sabe que Espanha tem interesses estratégicos no Magrebe, sabe que Madrid procura equilibrar as relações com Rabat e Argel e, por último, sabe, sobretudo, que a migração é uma das mais eficazes moedas de pressão da geopolítica contemporânea.

Assim, talvez a verdadeira factura de Sánchez não seja apenas a dos milhares que atravessaram a fronteira, é a fatura política de descobrir, da maneira mais dolorosa possível, que uma fronteira que depende da boa vontade do vizinho não é propriamente uma fronteira, é uma esperança com uniforme policial.
E a Europa? Continua a fazer cimeiras, declarações e belas fotografias diplomáticas, ou seja, a mesma Hipocrisia de sempre!

Enquanto isso, Ceuta olha para o outro lado do estreito e pergunta aquilo que todos em Madrid deveriam perguntar, quem controla realmente a porta quando quem está do lado de fora descobre que basta empurrá-la?

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