A nossa geopolítica não se limita apenas à criação ou ao aumento de blocos militares, económicos e comerciais, ou somente à disputa de influências políticas para a garantia dos interesses das grandes potências. Atualmente existe uma nova guerra fria entre os Estados Unidos e a China, e recentemente tem sido abordada a chamada “segunda corrida espacial”, em que o objetivo é claro: a criação de bases permanentes na superfície da Lua. E convém não nos iludir, pois quem ganhar esta corrida não fará apenas história, mas irá garantir a supremacia geopolítica e tecnológica ao longo do século XXI.
O recomeço desta nova disputa foi em 2016, quando a China de Xi Jinping anunciou a intenção de enviar astronautas à Lua até 2030, o que reacendeu uma grande pressão sobre Washington, já que os EUA venceram a primeira edição em 1969, com a missão Apollo 11. Essa tensão traduziu-se, ainda no primeiro mandato de Donald Trump, na assinatura da Space Policy Directive-1 (SPD-1), em dezembro de 2017.
Assim como ocorreu na primeira vez, em que se disputava um objetivo entre dois poderes, nos últimos anos foram criados dois grandes blocos dedicados à investigação e cooperação espacial, sendo eles: os “Artemis Accords”, assinados em 2020 pelos EUA, e que ao longo dos anos foram ratificados por mais de 70 países aliados; e a “International Lunar Research Station” (ILRS), liderada pela China em cooperação com a Rússia e constituída também pelos seus parceiros internacionais, criada em 2021. Com isso, a existência de dois blocos é a prova literal de que não há apenas um único jogador, mas dois a competir pelo mesmo tabuleiro e pela sua supremacia.
Com o estabelecimento de bases permanentes, as nações passariam a exercer domínio sobre o solo lunar, embora o Tratado do Espaço Sideral, de janeiro de 1967, não permita a anexação formal de território fora da Terra. Porém, no meu ponto de vista, a diferença entre “explorar” e “possuir” torna-se cada vez mais ténue, pois a própria permanência em si já garante amplo controlo estratégico sobre esse território. Quem conseguir manter essas bases por tempo suficiente terá meio caminho andado para obter os recursos lunares que ditarão quem sairá como vencedor desta corrida geopolítica:
1. Na região do Polo Sul lunar, mais especificamente nas suas crateras, existem enormes reservas de água congelada, numa área de 10.000 a 50.000 km², a temperaturas que chegam aos -233 °C. Essa água pode ser facilmente aproveitada para a manutenção da base e a permanência da tripulação. Além disso, uma vez decomposta em hidrogénio e oxigénio, pode ser utilizada como combustível para foguetes, o que iria permitir uma rota fixa entre a Lua e a Terra, algo facilitado pelo facto de a gravidade lunar ser muito reduzida, em comparação com a Terra. Quem possuir este recurso não ganha apenas vantagem na logística e na sua distribuição, ganha sobretudo uma grande autonomia, que torna qualquer potência menos dependente da Terra e menos vulnerável às consequências relacionadas com os conflitos militares atuais.
2. Existem também na superfície lunar as chamadas terras raras (metais essenciais para uso militar) e uma abundância enorme de hélio-3 (um isótopo leve e raro que poderá ser utilizado para a fusão nuclear) muito superior à da Terra. Quem obter acesso a este recurso ganha uma enorme vantagem, sobretudo devido ao setor energético global estar cada vez mais disputado e direcionado a alternativas aos combustíveis fósseis.
No fundo, a grande questão que devemos discutir não é saber quem irá chegar mais longe na exploração desta nova fronteira, mas sim saber quem irá liderar o poder tecnogeopolítico ao longo das próximas décadas a partir dela.