QUE PRAXE? BRUTALIDADE OU TRADIÇÃO NACIONAL?

No princípio era a Vontade. A vontade de restaurar algo intrínseco à condição, ao viver de estudante, ao estudante português, que tinha estado fechado, proibido durante cerca de dez anos.
Estava o autor destas letras no 11º ano, quando no Porto se fez a primeira mini-Queima, em 1978. Algo muito arriscado, juntando um punhado de carros de engenharia, medicina e alguns de letras. Nos anos seguintes, continuou de forma muito experimental.
Sempre sob os ataques, muitas vezes físicos de comunistas e extrema-esquerda. Na Queima de 81, quando o autor destas letras foi caloiro, era frequente os estudantes trajados serem alvo de insultos e ameaças.
E sucediam-se as diversas tentativas de boicotes aos cortejos e à serenatas. Pelo menos nas duas primeiras serenatas monumentais, em Coimbra e Porto, foi a PSP que impediu os boicotes. Durante anos, esteve pintado nas traseiras do H. Santo António, por onde passava o Cortejo “Morte à Queima” “Queimemos a Queima”.
Diga-se, além do mais que os gonçalvismos, as amplas liberdades e os PRECS estavam muito vivos. E era, para os anticomunistas mais ativos, outro um campo onde enfrentar o inimigo. A Revista da Queima de 1983, que foi a primeira, indicava como um dos problemas fundamentais, “as tentativas destruidoras dos estudantes da esquerda radical”.
Vivíamos uma realidade que não se voltou a ter. Ver a satisfação na cara de pais e avós, muitas vezes com lágrima furtiva, perante o nosso traje. O apoio sorridente de parentes, vizinhos, antigos professores do secundário e da primária. Ser felicitado na rua por conhecidos de vista, com quem nunca se tinha trocado uma palavra.
Ter a sensação única de que quando se entrava trajado num café e não havia lugar, estarem trajados sentados numa mesa, de que curso fosse e dizerem “senta-te aqui”. Ir-se a um local onde havia mais algum estudante (trajado claro) com carro, que nunca se tinha visto. E que nos oferecia boleia.
Assistir, desde caloiro à bênção das fitas dos finalistas. Sonhar com a altura que chegaria a nossa vez, mas agradecer a Deus por não ser depressa demais, para não esgotar aquela situação única. E cantar “Quero ficar sempre estudante”, acrescentando logo:” Em termos de espírito, claro”,
Acima de tudo, usar sempre o traje, unificador social, como todos os uniformes. Adorado pelos verdadeiros académicos e abominado pelos frustrados, os “comunas” e meninos “queques” (é um ó-rrór). Por aqueles que, tendo andando numa universidade nunca foram estudantes.
Em Coimbra arrancou a nova praxe, sensivelmente ao mesmo tempo, talvez mais organizada. Também aí os anos 78/80 foram bastante duros, com necessidade de protecção policial. A qual, diga-se, era dada de toda a boa-vontade: os que tentaram impedir as Queimas que o contem.
A história seguinte circulava, ainda, por voltas de 1990. Numa das primeiras Queimas, uma estudante, trajada, vinha de trabalhar nos carros do Cortejo. Ao passar perto da “República dos Galifões”, foi por diversos “comunas” agarrada e pintada de alto a baixo. Segundo uma versão, de branco, segundo outra, de vermelho.
Desfeita em lágrimas, regressa ao local onde os carros estavam guardados. O namorado, recém-chegado dos “comandos” organizou uma expedição punitiva, para a qual não faltaram voluntários. Nesse dia, acabou a “República dos Galifões”.
Ainda em 1991 existia em Coimbra um cartaz, em determinada república, no qual um “hippie “expulsava à pancada um praxista, trajado e de colher de pau. A Torre da Cabra, que era o “objeto contundente”, personificada, sorria.
No Ano Académico de 1981/82, dois alunos da “Católica”, lançam o livro “Quid Praxis Portucalensis?”( O que é a praxe portuense?). A qual começa a sua História, inevitavelmente, na Praxe Coimbrã.
Onde falam dos ataques físicos da extrema-esquerda, e entre muitas propostas, da necessidade de criar um Conselho de Veteranos. De quanto é caro o traje para ser usado apenas oito dias: daí urgente aumentar o número de ocasiões para o utilizar.
Ou seja, até então a Praxe reduzia-se, praticamente ao uso do traje e às normas do mesmo.
Tudo ia bem, com uma Queima de 83, onde além de mais participantes, se viam cada vez mais trajes. E a Queima, que era a Praxe, estava institucionalizada.
Até que em 84, a quantidade estragou a qualidade. No rescaldo dessa queima, já um jornal notou que as camisolas coloridas estavam a substituir o traje académico. As situações de copitos a mais, patuscas ou sentimentais, deram lugar a borracheiras vergonhosas, com vómitos. Houve queixas de “estudantes” (?) que se despiam durante o cortejo. No cortejo, começaram a ver-se drogados, “ganzados” ou “pedrados” . No sarau académico, que era o ponto alto da diversão, para entrar foram arrombadas portas e parece ter sido esfaqueado um segurança.
Diga-se que estes eram contra a praxe e usavam estas alturas para se exibirem. Para se abandalhar, academicamente falando.
Já tinha havido tentativas de organizar receções. Mas mesmo nas faculdades grandes, de modo muito anárquico. Se bem que bastante inofensivo: alguma farinha, caras pintalgadas.
Prosseguiu de forma agressiva. Obrigados a dizer palavrões, muitas vezes blasfémias. Por vezes havia feridos; ligeiros, felizmente.
O que levou os verdadeiros praxistas a tentarem organizar a brincadeira, ou o ritual como se quiser ver, de forma que não houvesse sangue. E na Receção ao Caloiro de 85, fará agora 41 anos, apareceu pela primeira vez o grupo que promoveu a eleição do tal Conselho de Veteranos.
Surgiu talvez a primeira trupe académica na Academia do Porto, chefiada por um gigantesco finalista de Medicina. Da qual fez parte o autor destas linhas. A finalidade desta P. A. (Polícia Académica), era, exatamente, travar os abusos, nomeadamente sobre os caloiros.
Um punhado de ativistas, seguidos por algumas centenas em todas as faculdades, levaram a cabo um esforço extremo para organizar a praxe. Multiplicaram-se, depois com as tunas, as oportunidades para trajar.
Lembramos partidas divertidas: dois caloiros vendados a dar iogurte um ao outro. Pôr uma caloira “gira”, na frente de um caloiro, ambos de joelhos; vendá-lo. Trocar a menina por outro caloiro e mandar o primeiro dar-lhe um beijinho. Com o evidente desconsolo que resulta. O “casco -paper “de Engenharia, disputado por equipas de três. Objetivo: ganhar em velocidade a volta ao quarteirão. Só que um ia de frente e dois de costas.
Não se pode dizer que sujar uma caloira de agronomia com estrume seja “praxe académica”: cai no âmbito do Código Penal. Mas também não se dizer que pôr os caloiros de farmácia a lavar os autocarros que paravam em frente à igreja de Cedofeita seja um atentado á dignidade humana.
Sem entrar nas averiguações judiciais, pode com certeza afirmar-se que levar um grupo amarrado pelo mar dentro, não é praxe. Faz antes, lembrar algum ritual satânico, mais ou menos maçónico.
A praxe académica portuguesa é única. Talvez por ser acompanhada de um traje específico, que dispõe de enorme adesão. Ódio de comunistas e bloquistas à parte, recordamos que a Comunidade Europeia pretende eliminar particularidades nacionais. Sem fantasiar muito, poderemos pensar que a praxe seja um alvo a abater.
É necessário ter presente tudo isso. Mas também sentir o orgulho único em ser-se estudante universitário, a sensação grandiosa e terrível de se usar uma insígnia e não se saber se passamos à seguinte. Ter coragem de gritar aos “comunas” que insultam e ameaçam, talvez mais difícil ao riso trocista dos “queques “, o grito de desafio e de triunfo:” São capas! / São fitas! / A praxe continua!”.

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