A ação humana continua a ser a causa preponderante e preocupante nos incêndios rurais na Região de Leiria, disse à agência Lusa o comandante Sub-regional de Emergência e Proteção Civil, Carlos Guerra.
“De notar que 76% das causas apuradas têm ação humana, o que é verdadeiramente preocupante, nomeadamente o que se refere a queimas de amontoados e uso de maquinaria”, afirmou à agência Lusa Carlos Guerra, citando dados da Guarda Nacional Republicana.
Segundo informação do Comando Sub-regional, este ano, e até 15 de outubro, foram registados 270 fogos rurais, tendo ardido 68 hectares (180 incêndios no ano de 2025, quando arderam 616 hectares).
O maior número de fogos foi registado em Leiria (106), seguindo-se Pombal (55), Marinha Grande (28) e Porto de Mós (24). Já em área ardida, Pombal (27 hectares) e Leiria (23) são os concelhos mais expressivos.
Incendiarismo (30%), queimas de amontoados de sobrantes florestais ou agrícolas (21%), uso de maquinaria (13%) e transportes e comunicações (12%) são as causas que mais se destacam nos incêndios na Região de Leiria, cujo território abrange dez municípios: Alvaiázere, Ansião, Batalha, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Leiria, Marinha Grande, Pedrógão Grande, Pombal e Porto de Mós.
Carlos Guerra realçou o aumento da causa “‘transportes e comunicações’, o que pode estar diretamente ligado aos danos das redes [elétricas] pela tempestade Kristin”, que atingiu gravemente este território em 28 de janeiro.
O comandante considerou que a Região de Leiria não pode “continuar a ter este paradigma em que, em quatro ocorrências, três têm origem humana”, por “descuido, negligência, dolo, intencionalmente”.
“Temos de nos preocupar com isto”, alertou.
Para o responsável da Proteção Civil, não se pode “continuar a ter uma floresta que se torna refém da ação humana negligente”.
“Não temos capacidade de um dispositivo aguentar que mais de 75% das nossas ocorrências têm origem humana, porque, se não fosse isso, teríamos o nosso problema dos incêndios rurais, eu não diria resolvido, mas, pelo menos, num bom caminho de podermos vir a ter uma boa gestão do que são os incêndios rurais”, adiantou.
O comandante sub-regional deu o exemplo de haver três ou quatro ocorrências, em simultâneo, causadas por negligência humana.
“Poderão dizer que são pequenas queimadas, que não têm perigo nenhum, mas esse perigo que as pessoas dizem que não tem, obriga-nos a um despacho de meios exatamente igual como se tratasse de um grande incêndio”, além de que pode hipotecar meios necessários noutro local, alertou, insistindo na necessidade de campanhas de sensibilização e de educação ambiental “para inverter este ciclo de incêndios causados pelo homem”.
Este ano, na Região de Leiria, os três maiores incêndios ocorreram nas localidades de Netos (25 de julho, com 19 hectares ardidos) e Carriço (04 de agosto e quatro hectares ardidos), ambas no concelho de Pombal, e ainda, em 03 de setembro, em Picaminho (Porto de Mós, com seis hectares destruídos).
De acordo com o responsável da Proteção Civil, os principais constrangimentos em matéria de combate a incêndios são, sobretudo, o “aumento do número de ocorrências e a crescente escassez de recursos humanos nas diferentes entidades, quer para reforço dos teatros de operações, quer para constituição de equipas permanentes”, considerando que tal “não permite um reforço mais musculado em ataque ampliado” aos incêndios.
Carlos Guerra salientou ainda que os “primeiros obreiros” dos resultados alcançados este ano são todos os operacionais que “estiveram presentes ou em apoio às operações”, convicto de que “sem o espírito de sacrifício e entrega total” destes os números seriam outros.