Os estudantes de Medicina alertaram hoje para falhas na plataforma de escolha de vagas do internato médico, após candidatos relatarem acesso antecipado a informações que, segundo a Administração Central do Sistema de Saúde, resultaram de uma simulação técnica.
A presidente da Associação Nacional dos Estudantes de Medicina (ANEM), Maria Fontão, disse à Lusa que a associação ainda não conseguiu obter “informações exatas de que erro técnico ou humano pode ter acontecido”.
“Ainda não conseguimos compreender muito bem a extensão do problema, além do período de tempo durante o qual se verificou. Mas o que decorreu, nomeadamente no dia de ontem [terça-feira], foi que, alegadamente, houve o acesso a determinadas preferências ou a determinadas vagas que estariam ou não disponíveis, sendo que o processo de ordenação termina apenas hoje”, adiantou.
A presidente da ANEM explicou que o prazo para os candidatos submeterem ou alterarem as suas listas de preferências termina às 23:59 de hoje.
Contactada pela Lusa, a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) explicou que foi realizada ao final da tarde de terça-feira uma simulação no âmbito dos procedimentos de verificação, validação e resiliência do sistema de colocação na formação especializada, tendo os resultados dessa simulação ficado temporariamente visíveis na plataforma.
“Contudo, a informação disponibilizada não corresponde aos resultados oficiais e não produz qualquer efeito sobre o procedimento de colocação, nem traduz uma atribuição efetiva de vagas aos candidatos, cuja integridade se mantém assegurada”, assegura a ACSS.
Segundo a ACSS, a simulação foi realizada pela SPMS – Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, entidade responsável pela gestão tecnológica da plataforma de candidaturas.
A ACSS recorda que os resultados do primeiro lote apenas serão conhecidos na quinta-feira, às 10:03, após a execução do algoritmo de atribuição das vagas, com base nas preferências ordenadas pelos candidatos dentro do prazo estabelecido.
Nas declarações à Lusa, a presidente da associação afirmou que “não era suposto esta informação ser divulgada”, considerando que a “falha técnica ou humana” acabará por ter repercussões “na confiança do sistema”, que, afirmou, “já estava muito fragilizada, antes sequer desse processo de iniciar”.
A ANEM diz ter recebido relatos de candidatos, bem como vídeos e fotografias que alegadamente documentam o sucedido. “São tudo informações de candidatos e estamos a tentar guiar a nossa ação pela informação que temos destes reportes”, sublinhou.
A alteração do modelo mereceu críticas da Ordem dos Médicos e da ANEM, levando também à criação de uma petição pública, que, às 13:00 de hoje, tinha 6.418 subscritores que pediam transparência, equidade e justiça no processo de escolha de vagas.
A associação já tinha alertado anteriormente que o novo sistema, em vez de presencial, passou a ser ‘online’ e com os candidatos organizados por grupos a terem de indicar previamente as suas preferências.
Dependendo do número de candidatos em cada grupo, poderá ser necessário ordenar dezenas ou mesmo centenas de vagas, explicou a ANEM, para quem esta alteração pode levar à inclusão de vagas “sem uma preferência efetiva”, apenas para garantir uma colocação, “aumentando o risco de rescisões posteriores”.
A associação reconhece as vantagens da digitalização do processo, nomeadamente a possibilidade de os candidatos realizarem a escolha a partir de qualquer localização e disporem de mais tempo para organizar as suas preferências, mas avisa que as alterações podem ter “consequências relevantes” para os candidatos e para o Serviço Nacional de Saúde (SNS).