Há políticas públicas que nascem com boas intenções, mas que revelam, quando chegam à rua, consequências que os seus autores parecem não ter previsto.
O sistema VOLTA foi apresentado como uma solução para incentivar a reciclagem e aumentar a devolução de embalagens. A intenção ambiental é legítima. Mas uma política pública deve ser avaliada também pelos efeitos que produz na vida real.
E basta percorrer algumas das nossas ruas para encontrar uma realidade preocupante: pessoas em situação de sem-abrigo e de extrema vulnerabilidade a vasculhar contentores, retirar garrafas e latas do lixo para depois as trocar por alguns cêntimos.
Isto não é uma imagem de progresso. É uma imagem de pobreza.
E foi aqui que o VOLTA, nos mostrou um problema social e de dignidade humana.
É fácil apontar o dedo a quem mexe no lixo. Mais difícil é perguntar porque chegou essa pessoa a esse ponto.
Uma sociedade que aceita que alguém tenha de vasculhar um contentor para conseguir alguns euros tem um problema muito maior do que a quantidade de embalagens que consegue reciclar.
Temos um problema de pobreza, de exclusão e de falta de respostas para quem vive sem casa, sem rendimento e sem uma rede de apoio.
É possível defender a reciclagem e, ao mesmo tempo, questionar a forma como ela está a ser implementada. Uma política pública responsável deve resolver problemas, não criar outros.
O VOLTA pode ter uma boa intenção ambiental. Mas uma boa intenção não chega.
Governar é também olhar para aquilo que acontece na rua. E aquilo que vemos deve obrigar-nos a discutir se estamos realmente a combater a pobreza ou simplesmente a criar mecanismos para que os mais vulneráveis sobrevivam dela.
Não são as pessoas que procuram no lixo alguns cêntimos que devem ser vistas como o problema. O problema é termos chegado a uma sociedade onde essa é uma forma de sobrevivência.
Por isso, talvez seja altura de dar uma volta ao VOLTA.
Não para acabar com a reciclagem, mas para garantir que, por detrás de cada embalagem devolvida, não estamos a esconder uma realidade muito mais difícil de resolver: a pobreza, a exclusão e a perda de dignidade humana.
VAI NA VOLTA… mas que a dignidade humana não vá pelo mesmo caminho.