19 Abril, 2024

Barcos de migrantes desafiam a proteção civil de Cabo Verde

Quem caminhar pelo areal para longe do casario da Baía da Gatas, ilha de São Vicente, encontra um barco abandonado desde quarta-feira, o mais recente a chegar a Cabo Verde com um grupo em busca da Europa, via Canárias.

© Facebook Open Arms

A piroga é imagem de marca da pesca nas costas africanas, mas ganhou outro mediatismo nas últimas duas décadas, sobrelotada, como imagem comum das migrações irregulares para a Europa.

Com cerca de dez metros de comprimento por dois de largura, a estrutura de madeira e fibra esbranquiçada descasca-se nas bordas, tem um remendo na proa e parece acumular anos de desgaste, tal como as traves e caixas de madeira num interior despido de segurança.

Um par de calções, uma garrafa de água com rótulo em árabe, cordas e redes ficaram caídos dentro do barco que percorreu mil quilómetros desde a cidade portuária de Nouadhibou, Mauritânia.

“O motor foi retirado e está à guarda das autoridades marítimas”, explicou Anilton Andrade, vereador com o pelouro da proteção civil, que acompanhou as operações à chegada do grupo de 11 ocupantes, oriundos de Mopti, Mali, que passaram quatro dias no mar e, quando chegaram, perguntaram se estavam em Espanha – no arquipélago das Canárias.

Três dias antes, outra embarcação semelhante, que partiu do mesmo porto, encalhou na ilha de São Vicente, na zona de Calhau, após um mês à deriva, sobrevivendo apenas quatro dos 65 ocupantes.

“O primeiro impacto [ao ver a embarcação] é terrível, ver as pessoas nestas condições”, descreve Anilton Andrade, recordando que “na outra embarcação até havia cadáveres, há vários dias”.

As autoridades cabo-verdianas estimam que os barcos precários sejam presas fáceis para o mar agitado e o vento forte, arrastando-as para fora de rota – as próprias autoridades tiveram dificuldades em fazer-se ao mar para ações de busca, no domingo e o vento com rajadas de noroeste não tem parado de soprar.

Vitória Veríssimo está rotinada nas atividades da proteção civil e há um ano assumiu o cargo de comandante regional, mas é a primeira vez que lida com resgate e acolhimento de migrantes em São Vicente.

“Já tínhamos experiência da proteção civil noutras ilhas” e isso está a ajudar, explica à Lusa, ao entrar no centro de estágios de futebol do Mindelo, o espaço que serviu para isolamentos durante a pandemia de covid-19 é o mesmo para onde agora foram transferidos os 15 homens que até quarta-feira chegaram a Cabo Verde.

A todos foi recolhido sangue para análise, despistada malária – Cabo Verde foi classificada livre da doença em janeiro – e covid-19, todos com resultados negativos, e feito questionário sobre doenças crónicas.

Equipas médicas e de enfermagem seguem-nos diariamente e foi estabelecido um plano nutricional para reestabelecer as forças, em especial dos quatro sobreviventes da primeira embarcação, que após um mês à deriva, mal conseguiam movimentar-se – seguiram da praia para o hospital em macas e permaneceram internados dois dias.

“No geral, alguns queixam-se de dores de dentes, dores de cabeça, mas todos estão a recuperar. São pessoas muito calmas, tranquilas e colaboram sempre connosco”, mesmo quando surgem barreiras linguísticas, descreve Vitória Veríssimo.

“Estão nos quartos sob custódia da Polícia Nacional enquanto as autoridades fazem as diligências necessárias” que envolve contactos com os países de origem.

“A nível da proteção civil asseguramos a saúde, higiene e falamos com eles”, acrescenta, acompanhando qualquer necessidade.

Das janelas no segundo andar, observam os treinos de futebol que as equipas locais fazem no relvado sintético do centro de estágios.

No rés-do-chão, um empresário maliano residente no Mindelo passa pelo centro, ao saber da presença de compatriotas e oferece-se para lhes entregar uma das próximas refeições, um exemplo do que têm sido os gestos de entidades locais e particulares.

“Todas as entidades e agentes da proteção civil de São Vicente estão empenhadas em dar o melhor apoio possível”, concluiu Anilton Andrade.

Além dos dois barcos artesanais que esta semana encalharam na ilha de São Vicente, registaram-se outros três casos em Cabo Verde nos últimos 16 meses.

Em novembro de 2022, uma embarcação com 66 imigrantes senegaleses deu à costa, na ilha do Sal.

Em janeiro de 2023, uma piroga chegou à ilha da Boa Vista com 90 migrantes africanos a bordo, dois deles mortos.

Um barco que partiu do Senegal em julho de 2023, com 101 pessoas, foi encontrado à deriva junto à ilha do Sal, Cabo Verde, em agosto, com 38 sobreviventes, assistidos e repatriados.

Agência Lusa

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