APAV ajudou 681 vítimas de cibercrimes em 2024 com violência sexual a aumentar

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) ajudou 681 pessoas alvo de cibercrimes em 2024, registando mais vítimas e denúncias do que no ano anterior, sobretudo casos de burla, mas também mais situações de violência sexual.

© D.R.

Os dados da Linha Internet Segura 2024, aos quais a Lusa teve acesso, mostram que entre as 681 vítimas ajudadas através da ‘Helpline’ registaram-se 756 crimes, a maioria por burla (incluindo burla informática e burla na forma tentada), com 247 casos, mas também extorsão (88), acesso ilegítimo (61), devassa da vida privada (61) ou crimes sexuais contra crianças.

A maioria das vítimas era do sexo feminino (57%), com mais de 18 anos (89%), tendo os crimes ocorrido sobretudo nas redes sociais (267 casos), em serviços de mensagens (122) ou através de páginas na internet (83).

Tomás Grencho, da APAV, disse que, em comparação com 2023, a associação teve “mais vítimas e mais denúncias” no ano passado, sublinhando que a evolução mostra “números muito significativos nos crimes de burla” nos mais diferentes métodos.

“Estamos a falar, nomeadamente, de casos de burla romântica, de burlas no comércio ‘online’, de burlas de investimentos, situações de ‘job scams’, portanto, ofertas de emprego que não correspondiam, de facto, a ofertas de emprego, e, no fundo, eram oportunidades para que os autores do crime conseguissem, de alguma forma, obter dinheiro com as vítimas”, adiantou.

Sublinhou que, apesar de o crime de burla ser “o mais preponderante”, em 2024 a APAV registou “uma clara evolução das situações de violência sexual baseada nas imagens”, incluindo casos de extorsão sexual, em que “alguém ameaça distribuir conteúdo de natureza pessoal ou íntima, caso a vítima não forneça dinheiro ou favores sexuais”, por exemplo.

Houve igualmente “um aumento significativo nos casos de partilha não consentida de imagens íntimas de pessoas adultas em plataformas digitais”, quer páginas na internet, quer serviços de mensagens.

Foi o caso de Joana Oliveira (nome fictício), que teve imagens suas partilhadas num grupo fechado da rede Telegram, constituído apenas por homens, e do qual só teve conhecimento depois de alertada por uma amiga que conhecia uma das pessoas do grupo.

No seu caso, alguém retirou fotos que tinha na conta de Instagram, mas, segundo Joana, no grupo do Telegram as fotos partilhadas são “um pouco aleatórias”, havendo tanto de mulheres de biquíni, na praia, como em contextos familiares e em que estão completamente vestidas.

“Acho que é para gozo, é uma coisa um bocado de animal, de gozo, tratam as mulheres como se fossem gado e depois fazem todo o tipo de comentários”, contou.

Segundo Joana, além da partilha de fotos, os homens que fazem parte do grupo também partilham informação sobre as vítimas, por exemplo, dando indicações dos locais onde moram.

“Fiquei chocada, porque não estava à espera de uma coisa destas. Não estava mesmo à espera. Nem percebi. Na altura, pensei logo que era uma espécie de um site pornográfico, uma coisa assim mais hardcore, depois percebi que era uma conta de Telegrama de vários machos alfa, que achavam que era um gozo aquilo tudo”, revelou.

Joana disse que fez uma participação num posto da GNR e que, posteriormente, contactou a APAV, mas não tem esperança que haja qualquer resolução em relação ao seu caso ou que a conta do Telegram venha a ser fechada.

Admite que desde este episódio, que aconteceu há cerca de um ano, tem muito mais cuidado com as fotos que partilha, mas também desconfia mais das pessoas que aceita como amigas nas redes sociais, tendo inclusivamente eliminado “imensas pessoas, principalmente homens”.

Tomás Grencho adiantou que esta partilha de imagens íntimas sem consentimento prévio também acontece no contexto de relações amorosas, sobretudo depois de terminarem, e revelou que “começam a surgir também casos de ‘deepfakes’, casos de adulteração ou manipulação de imagens ditas normais para fotografias íntimas”.

O responsável da APAV disse que ainda não são números muito expressivos, mas que começam a aparecer cada vez mais, alertando para o risco do recurso à Inteligência Artificial para manipular fotografias.

A APAV tem também uma plataforma de denúncia de conteúdos ilegais na internet (‘Hotline’), através da qual recebeu 1.029 denúncias, 761 sobre conteúdo relativo a abuso sexual de menores e 268 relativas a discursos de ódio.

Últimas do País

Cerca de 200 polícias e guardas manifestaram-se ontem, em silêncio, no Porto, na véspera de novas reuniões com o ministro da Administração Interna sobre a reestruturação das carreiras e a organização do tempo de trabalho.
Quase metade das reclamações apresentadas contra o Ministério da Educação desde agosto está relacionada com alunos ainda sem colocação. Pré-escolar e 1.º ciclo concentram mais de metade dos casos e Setúbal lidera as queixas.
Um homem foi constituído arguido por suspeitas de branqueamento de capitais no âmbito do esquema de fraude conhecido como ‘CEO fraud’, anunciou hoje a Procuradoria-Geral da República.
O antigo Presidente da República recebeu diretamente do filho o pedido de ajuda para as gémeas e encaminhou o caso para a Casa Civil. Ministério Público acusa Nuno Rebelo de Sousa e outros dois arguidos de prevaricação, em concurso aparente com abuso de poderes, mas Marcelo não figura entre os acusados.
Daniela Martins recebeu 96 euros mensais de uma instituição de solidariedade para ajudar na compra de leite, numa altura em que chegou a ter mais de 100 mil euros à ordem. Ministério Público arquivou esta parte do caso, mas acusa a mãe das gémeas de burla qualificada relacionada com a atribuição de duas cadeiras elétricas.
O número de crimes de ofensas corporais e de armas cometidos nas escolas no último ano letivo foi o maior dos últimos cinco anos, tendo também aumentado as ofensas sexuais e o tráfico de droga, revelou esta terça-feira a PSP.
O ensino superior é o nível de escolaridade com maior financiamento público por aluno na maioria dos países da OCDE, mas não em Portugal, onde um universitário custa menos ao Estado do que um estudante do secundário.
A maioria dos jovens que não consegue concluir o ensino secundário em, pelo menos, cinco anos acaba por desistir dos estudos, segundo um relatório divulgado hoje que destaca, ainda assim, o progresso de Portugal na escolaridade obrigatória.
A Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), organismo público responsável por acompanhar a aplicação das regras de representação equilibrada entre homens e mulheres, tem atualmente oito mulheres e apenas um homem em nove funções de direção e coordenação. A composição da própria entidade que fiscaliza a igualdade está agora no centro de uma polémica, depois de o jornal SOL ter revelado o desequilíbrio e confrontado a instituição com a lei que estabelece uma representação mínima de 40% de cada sexo nos cargos abrangidos.
Estrangeiro de 71 anos terá desaparecido depois de tomar conhecimento da investigação por abuso sexual de uma criança, em Colares, Sintra. Denúncia anónima colocou a Judiciária no encalço do suspeito, que acabou localizado e detido.