Mulheres sem-abrigo: Histórias de sobrevivência quando a rua é o mal menor

Cerca de 30% das pessoas sem-abrigo em Portugal são mulheres, muitas vítimas de violência doméstica, que veem a rua como o mal menor, mesmo que isso implique deixar os filhos para trás.

© LUSA/ANTÓNIO COTRIM

Ser mulher na rua é uma fragilidade acrescida, confessaram algumas mulheres sem-abrigo com quem a Lusa falou. À perda de dignidade e autoestima juntam-se violência, humilhação, medo e a necessidade de estratégias de autoproteção.

Maria (nome fictício), 48 anos, vive há seis meses numa unidade de acolhimento da Comunidade Vida e Paz, uma das poucas com quartos para mulheres. Antes disso, passou três anos na rua, depois de recusar voltar a viver com um companheiro violento, durante a pandemia de covid-19.

“Deixei o meu filho com os meus pais. Achei mais seguro do que levá-lo para a rua”, diz.

Na rua, aprendeu a proteger-se: andar com a mochila às costas, dormir cada noite num sítio diferente, evitar rotinas. Mas nem sempre funcionava.

“Um dia adormeci numa escada, achando que ninguém me encontrava. Acordei com um homem em cima de mim. Consegui empurrá-lo. Fugi com medo que me perseguisse”, recorda.

Teve a tenda destruída, foi ameaçada com uma faca. “Ser mulher na rua é uma fragilidade e uma dificuldade acrescida”, resume.

Margarida Bolhão, 55 anos, viveu mais de 15 anos na rua. Hoje está acolhida pela Cruz Vermelha Portuguesa (CVP), mas lembra-se bem do medo constante de ser violada.

Carregava sempre a mochila às costas para não ser roubada, usava-a como almofada à noite. “Procurava a companhia de homens só pela sensação de proteção”.

Segundo Teresa Prata, assistente social da Comunidade Vida e Paz, “as mulheres estão mais vulneráveis a todos os tipos de violência”. Muitas juntam-se a grupos ou a companheiros para se protegerem, mesmo em contextos de dependência emocional ou abuso.

Ana (nome fictício), 36 anos, vive numa tenda debaixo de um viaduto há um ano e meio. Fugiu de uma relação de 17 anos marcada por agressões. O filho vive com o pai, a filha com um tio. “Como com os ratos, durmo com os ratos”, descreve. Nos dias em que está menstruada, lava-se com garrafões atrás de um muro.

“Pensos [higiénicos] nem sempre tenho. Às vezes uso cuecas ou meias”, conta.

Quer voltar a viver com os filhos, mas teme que, se admitir a sua situação, os filhos sejam institucionalizados. Sem rendimentos, não consegue pagar um quarto nem procurar trabalho.

Luísa Gomes, 57 anos, foi sem-teto durante 15 anos. Lembra-se da vergonha que sentia durante o tempo que dormiu na rua e de se sentir exposta perante as pessoas que passavam por si. Recorda-se também das “hemorragias muito grandes” na altura da menstruação, que a obrigavam a ir lavar-se num chafariz.

“Cheguei a ir ao supermercado, com o sangue quase a escorrer-me pelas pernas, roubar um penso [higiénico] porque eu não tinha”, recorda. Após anos de prostituição, decidiu mudar de vida ao entregar o quarto filho para adoção. Hoje vive com apoio da associação CRESCER, no programa Housing First.

Cristiana Merendeiro, neuropsicóloga e coordenadora na CRESCER, diz que “cerca de 30% das pessoas em situação de sem-abrigo são mulheres”, com idades entre os 40 e 45 anos em média. Mas nota um aumento de jovens com históricos severos de violência doméstica.

“São mulheres com traumas brutais, com saúde mental fragilizada”, afirma. Muitas evitam as equipas de rua por proteção, escondendo-se ou só sentindo segurança se estiverem em casal.

Critica a resposta institucional que, perante mães sem-abrigo, opta pela separação dos filhos. “Isso é altamente traumático para as crianças e destrutivo para as famílias”.

Maria Madalena Ramalho, vice-presidente da Cruz Vermelha, confirma que o número de mulheres em situação de sem-abrigo apoiadas pela instituição tem crescido. Nos últimos dois anos, o número total de pessoas apoiadas pela CVP aumentou 126%.

“O fenómeno está a caminhar para a paridade”, diz, apontando causas como a crise económica, o envelhecimento da população e o aumento das famílias monoparentais – na maioria compostas por mulheres com filhos.

Admite que a situação se agrave com a subida do custo da habitação, não acompanhada pelo aumento dos salários.

Segundo o Inquérito de Caracterização das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, de 31 de dezembro de 2023, existiam 13.128 pessoas nesta condição, das quais 4.871 na Área Metropolitana de Lisboa. Um número em crescimento – no qual as mulheres são cada vez menos exceção.

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