Calor extremo agravou mortalidade em Portugal, sobretudo no interior do país

Os episódios de calor extremo registados na última década agravaram a mortalidade em Portugal, em comparação com a década de 1990, sobretudo nas regiões do interior do país, com Trás-os-Montes a registar o maior aumento.

© D.R.

A conclusão consta do relatório Countdown Europe 2026, sobre saúde e alterações climáticas, publicado na segunda-feira pela revista especializada The Lancet.

Num capítulo dedicado a Portugal, o relatório refere que a mortalidade associada ao calor aumentou entre as décadas de 1991-2000 e 2015-2024, em particular nas regiões do interior e norte do país.

Naquele período, o cenário agravou-se, sobretudo, em Trás-os-Montes, onde a mortalidade atribuível ao calor mais que duplicou, de 11,5 mortes por um milhão de habitantes na década de 1991-2000 para 26,7 na última década.

Em comunicado, o Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA), que partilhou as conclusões do estudo da The Lancet sobre Portugal, sublinha que esses dados expõem uma “vulnerabilidade estrutural” da população envelhecida do interior do país, com menor acesso a cuidados de saúde e habitações com fraco isolamento térmico.

A CPSA defende, por isso, uma adaptação àquelas regiões dos planos de contingência de calor, que diz serem desenhados com enfoque nas áreas metropolitanas.

O relatório revela ainda que a região autónoma da Madeira registou o maior aumento do número de dias com alertas de calor extremo, bem como de dias marcados por ondas de calor vivenciados pelas faixas etárias mais velhas.

Na década de 1991-2000, a população da Madeira acima dos 65 anos passou por 88.800 dias com onda de calor, número que aumentou 290% na década de 2015-2024, para 346.100 dias.

Já o Algarve registou um “aumento substancial” de dias de exposição a ondas de calor entre a população abaixo de 1 ano de idade, de 227% entre 1991-2000 e 2015-2024, de uma média de 480 dias para 1.570 dias.

O relatório analisou também o impacto das alterações climáticas na adequação ambiental para doenças transmitidas por vetores, destacando a Área Metropolitana de Lisboa pelo maior aumento no risco de surtos de infeções pelo vírus do Nilo Oriental, de valores quase nulos para níveis que justificam vigilância ativa das autoridades de saúde.

Em 2024, as regiões do Baixo e Alto Alentejo registaram a mais elevada adequação ambiental para a transmissão de dengue.

Quanto aos incêndios florestais, Coimbra foi a região portuguesa que perdeu mais floresta, contabilizando menos 84.600 hectares entre 2016 e 2023, uma perda que, além de representar um problema ambiental, implica também riscos diretos para a saúde, devido à diminuição do sequestro de carbono, maior exposição ao calor e ciclos de incêndio cada vez mais intensos.

“Os dados do Lancet confirmam que Portugal enfrenta riscos climáticos crescentes para a saúde, com impactos desiguais entre regiões e grupos populacionais”, sublinha o presidente da CPSA, citado em comunicado.

Alertando que “a janela para uma ação decisiva está a estreitar-se”, Luís Campos defende políticas concretas para proteger a saúde dos portugueses face à emergência climática.

Também o relatório deixa um conjunto de recomendações para Portugal, que passam pelo reforço dos planos de ação para ondas de calor e dos sistemas de alerta, da vigilância e prevenção de doenças infecciosas sensíveis ao clima, bem como a priorização da redução do risco de incêndio florestal e resiliência dos ecossistemas.

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