Trotinetes assustam mas não são problema comparado com acidentes de carro

A associação Estrada Viva defendeu que as trotinetes “não são um problema comparadas com os automóveis”, considerando que o foco neste meio, que gerou debate recente no Porto e em Gaia, ignora o domínio do automóvel na sinistralidade rodoviária.

© TIAGO PETINGA/LUSA

“Eu que sou um grande defensor do peão, porque também sou secretário-geral da Federação Internacional de Peões, sei perfeitamente que [as trotinetes] assustam, podem ser um problema, mas não são um problema comparado com os automóveis”, disse à Lusa Mário Alves, também presidente da associação Estrada Viva, uma rede de associações pela Cidadania Rodoviária, Mobilidade Segura e Sustentável.

Segundo dados da GNR divulgados em 13 de março, em sete anos, entre 2019 e 2025, foram registados 10 mortos com acidentes de trotinetes.

Em comparação, só no ano de 2025 morreram em Portugal 448 pessoas fruto de acidentes de viação, de acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI).

“Estes são os grandes números que incluem sempre, sempre o veículo automóvel. O transporte público, a bicicleta e as trotinetes, no fundo, são números muito, muito pequenos”, salientou Mário Alves, que aponta que “o grande problema da sinistralidade rodoviária em Portugal é automóvel contra automóvel e automóveis sozinhos que se despistam”.

A Lusa ouviu Mário Alves na sequência de um acidente de trotinete no Porto em 18 de abril, a que se seguiu uma proposta feita pela vereação do PS na câmara municipal, para um estudo sobre a utilização de trotinetes elétricas e sinistralidade associada àquele meio, algo aprovado por unanimidade.

Em Gaia, foi cancelado um concurso para disponibilização de trotinetes elétricas, alegando razões de segurança, e também foi aprovada na Câmara, após proposta do PS, um estudo para o mesmo efeito.

Numa discussão que muitas vezes se alarga a outros modos de mobilidade, Mário Alves aponta que “a maior parte dos sinistros com bicicletas são quedas e feridos ligeiros”, mas “sempre que há uma colisão com o automóvel, as consequências são extremamente graves”.

Para o dirigente associativo, “o discurso tem que mudar” e campanhas centradas, por exemplo, em coletes refletores ou capacetes, colocam “o ónus, de facto, na potencial vítima” e não num reconhecimento de que “o problema está em máquinas com uma tonelada dirigidas de forma pouco responsável”.

Em junho de 2025, a PSP, em resposta à Lusa, reconheceu que os utilizadores de modos suaves são “os mais vulneráveis” nas ruas, “num contexto urbano extremamente complexo e onde circulam no mesmo espaço desde velocípedes até veículos pesados”, porém não esclareceu se são estes ou os automobilistas, cuja sinistralidade é superior, que devem ter mais cuidados, apontando preocupação “com todos”.

Mesmo que haja “malandrices que se fazem de trotinete, até os peões, e toda a gente não cumpre inteiramente a lei”, isso não deve fazer “desfocar e um distrair do problema que são de facto os carros, é onde está o perigo rodoviário”.

Mário Alves salienta ainda que “uma coisa também muito grave são os atropelamentos de peões em zonas urbanas”, pelo que mudar o desenho das cidades é fundamental.

“Eu creio que em Portugal, desde os anos 80, desde que começámos a ficar um bocadinho mais ricos, começámos a comprar muitos carros e há uma aquisição de automóveis muito recentes”, o que cria “dominação e dependência do automóvel”, num país marcado por “desordenamento urbanístico”, “populações muito dispersas” e “subúrbios mal servidos por transportes públicos”.

Mário Alves fala mesmo numa “toxicodependência em que as pessoas não conseguem imaginar uma vida sem o automóvel”.

“A partir daí, as trotinetes, as bicicletas e os peões são um incómodo que estão a prejudicar a sua fluidez e a sua velocidade para chegar a uma vida que é sempre complicada”, entre ir “buscar as crianças, e deixar a avó”, tudo parte de um “um fenómeno sociológico” que, por exemplo, no Norte da Europa “já não existe, porque a aquisição do automóvel foi há mais décadas”.

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