Assisti ao debate entre José Pacheco Pereira e André Ventura, na íntegra.
Depois de acusações públicas a Ventura, de que teria proferido falsidades durante o seu discurso no aniversário da Constituição, o país parou na expectativa da revelação daquilo em que teria o líder do CHEGA! mentido. Chegados ao final do debate, o país continuava na expectativa…
O principal argumento lançado contra André Ventura foi que as violações de direitos humanos e as privações de liberdades foram sistemáticas durante o Estado Novo mas apenas pontuais, durante o PREC, na III República.
Isto é perfeitamente verdade mas é também algo que André Ventura e o CH nunca tinham negado.
No entanto, por esse critério, TODOS os regimes políticos anteriores à democracia, haviam sido sistematicamente abusivos. Chama-se a isso uma falácia retórica, nomeadamente uma de anacronismo histórico. Não podemos comparar as circunstâncias políticas em que o Estado Novo foi formado com a situação de Portugal e do mundo, em 1974. É plausível que uma ditadura conservadora inaugurada em 1974, também se tivesse revelado mais humanitária do que uma inaugurada em 1926.
Um argumento secundário foi a maior arbitrariedade dos crimes políticos no Ultramar, comparada com os crimes do PREC na metrópole. Ora, o CH nunca negou tais crimes embora tendo Ventura apontado que muitas das prisões e torturas no Ultramar estivessem ligadas ao contexto de guerra. Isto quis JPP contra-argumentar, preferindo ele – como bom marxista – a motivação racista para os abusos.
Aqui ambos têm alguma razão. É verdade que havia mais racismo num contexto multi-racial do que num contexto mono-racial – sobretudo quando as tensões eram acicatadas pelas superpotências – e é verdade também que a situação de guerra levaria sempre a maior número de prisões políticas e abusos.
Mas aquilo que JPP não quer ver é que a propensão para violações de direitos humanos, sempre havia sido maior nos contextos coloniais, durante toda a História – inclusive na península ibérica aquando das invasões romanas, se quisermos ir até à Antiguidade. A razão não era racismo mas sim a inexistência de critérios de guerra justa e de Estado de Direito nos territórios coloniais. Aqui, o arauto do PSD perde toda a razão pois nunca tinham os territórios africanos sido mais humanitários previamente à chegada dos portugueses, nem tão pouco eram moralmente superiores as forças separatistas que haviam atacado as populações civis e as forças militares portuguesas no Ultramar. Por outras palavras, a guerra em África travava-se e trava-se com regras de conduta muito diferentes das que vigoram no continente europeu.
A teima em comparar o incomparável, é a teima universalista da uniformização dos povos e dos indivíduos, tipicamente marxista e totalitária.
No debate, Pacheco Pereira revelou-se como um esquerdista sem arrependimento, e um que continua a ver o Estado Novo como um regime excepcionalmente maléfico. Esta mundivisão é, essencialmente, e como bem detectou Ventura, traidora à pátria. Esta perspectiva desrespeita, intrinsecamente, TODOS os cidadãos que representaram a nação durante os 50 anos da ditadura. Todas as repartições, todos os agentes da autoridade, todos os soldados, todos os administradores, transformam-se assim em criaturas pecaminosas, sem redenção possível, por terem representado um regime culpado de assassinatos e violações de direitos humanos. No fundo, apenas a III República é santificada e inocente e Portugal mais valia ter nascido em 1974.
O CH é, supostamente, cruel por denunciar linguagem crioula em hospitais ou turmas escolares com maiorias étnicas de 3º mundo. Já JPP é muito humanitário por defender os velhinhos crioulófonos e as minorias depauperadas. Responsabilidade por integração é zero na sua óptica e que se danem os cidadãos portugueses obrigados a pagar por quem não quer saber da cultura portuguesa e que nunca contribuiu para o SNS ou para o orçamento da Educação.
Como um bom esquerdista, a sua prioridade são as minorias e os coitadinhos e os portugueses que se danem. Pacheco Pereira não teve NENHUM contra-argumento quando acusado de ter apoiado politicamente os indultos E as condecorações a líderes do PREC e cúmplices das FP-25. A moralização é apenas para os outros.
Imaginemos que André Ventura não fazia o discurso que fez. Alguém mais o teria feito? Os manuais de História e os documentários dos media do sistema falam criticamente sobre o 25 de Abril?
Pereira acredita ainda que a culpa pelo cataclismo da descolonização foi de Salazar e que ela foi bem feita em territórios pertencendo a outras nações europeias.
Os agentes da III República não têm culpa por não protegerem os seus cidadãos e territórios em África, nem tão pouco os africanos têm culpa por levarem a cabo genocídios de brancos e terem destruído os territórios que passaram a administrar. Maléfico só mesmo a agência do Estado Novo e de Salazar, todos os outros são inimputáveis.
Curiosamente, a descolonização “bem feita” em territórios da Coroa Britânica, não os poupou a genocídios de europeus ou destruição económica dos mesmos…
A verdade é que o próprio conceito de ‘descolonização’ é um artifício ideológico que é EXCLUSIVAMENTE apontado aos países da Europa ocidental. Não houve descolonização necessária nos EUA, na URSS ou na Indonésia e Chinas terceiro-mundistas. A visão esquerdista de que a auto-flagelação e o suicídio moral são a prioridade perante um mundo predatório são a própria definição da traição à pátria; é a mundivisão de quem não tem o interesse nacional como princípio basilar mas sim a tranquilidade moralista cobarde, do medo perante o julgamento alheio.
Os cobardes não dão bons governantes e os traidores à pátria merecem julgamento.