Em declarações hoje à agência Lusa, à margem do 15.º Congresso Nacional da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação (BAD), o subdiretor geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), Bruno Duarte Eiras, salientou que “há quase duas décadas, por exemplo, que não há formação profissional no nível técnico, aquilo que seria um assistente técnico com o 12º ano”.
“Os profissionais que temos no mercado são muito poucos, neste momento andamos a canibalizar os serviços roubando profissionais de uns serviços para os outros, e no caso dos profissionais de nível superior, os chamados bibliotecários ou arquivistas o desafio é que a formação é eminentemente académica, quando o exercício desta profissão tem um lado técnico e prático muito forte”, sustentou.
Vários intervenientes no congresso salientaram que o sonho nascido em 1986, de criação de bibliotecas públicas no país, que alguns ajudaram a concretizar, parece hoje estar a “desmoronar-se”, uma vez que a Rede Nacional de Bibliotecas públicas está “a perder relevância”.
A este propósito, Bruno Eiras referiu que vivemos atualmente numa sociedade “em que a informação está disponível em muitos locais, de muitas formas, e o conceito que está mais enraizado na nossa sociedade, em Portugal em particular, é um conceito de que a biblioteca hoje em dia pode não ser um serviço relevante porque está tudo acessível ‘online’ e cada um dos utilizadores pode aceder àquilo que quer”.
Enquanto entidade coordenadora da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, a preocupação é “relembrar que a informação não é igual em todo o lado e que o serviço de biblioteca municipal pode ser um serviço relevante, útil, de proximidade, porque a informação está mediada por profissionais qualificados”.
Em seu entender, numa altura em que se celebram 40 anos do projeto de criação da rede nacional de bibliotecas públicas, que hoje integra 490 bibliotecas, é “desafiante voltar a olhar para um projeto com esta idade e continuar a considerar que o investimento é necessário porque o investimento público carece sempre da sua continuidade, caso contrário ele desaparece e é isso que distingue o financiamento público e o investimento público do privado”.
“As bibliotecas não são só livros e só leitura, essencialmente são informação, conhecimento, descoberta, aprendizagem”, frisou.
Sob o tema “Compromisso com a Democracia: Diálogo, Bem-Estar, Inclusão”, o congresso, que reúne mais de 500 profissionais da área, começou na quarta-feira e termina na sexta-feira, na Universidade Portucalense, no Porto.
Propõe uma reflexão sobre como bibliotecas, arquivos e outros serviços podem afirmar-se como espaços seguros de diálogo, aprendizagem e cidadania, ao mesmo tempo que enfrentam novos desafios, como o impacto da inteligência artificial.
O encontro pretende, ainda, reafirmar o papel essencial dos profissionais da informação na defesa dos valores democráticos, num contexto marcado pela desinformação, ameaças à liberdade de expressão e crescente fragmentação social.