São João testa transfusão de sangue total em emergência pré-hospitalar

A Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) do São João, Porto, está a levar sangue total às vítimas de trauma grave para testar a transfusão em emergência pré-hospitalar, uma prática comum em cenários de guerra, foi hoje revelado.

© D.R

O objetivo é melhorar a sobrevida dos doentes, nomeadamente vítimas de grande trauma ou hemorragias maciças como politraumatizados após acidentes de viação ou de trabalho.

O projeto chama-se STOPTEX e envolve meios da Unidade Local de Saúde São João (ULSSJ), nomeadamente do serviço de Medicina Intensiva (SMI) e do serviço de Imunohemoterapia (SIH), a VMER deste hospital, tendo o apoio do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM).

Na informação remetida à agência Lusa, os responsáveis descrevem que em causa está “determinar a exequibilidade, segurança e efetividade da utilização de sangue total, no pré-hospitalar, em vítimas cuja situação clínica — risco de exsanguinação — justifica a sua administração emergente, sendo aplicável às situações clínicas críticas”.

As vítimas às quais passou a ser aplicada esta prática — que é comum em cenários de guerra, em países da América do Norte, e, na Europa, já foi testada e implementada nos países com atuação militar ao abrigo da NATO, bem como Noruega, Espanha e Itália — são avaliadas pela equipa médica da VMER da ULSSJ ou referenciadas pelo CODU/INEM para o Serviço de urgência desta ULS.

Em declarações à agência Lusa, a coordenadora da VMER do São João, Sofia Rocha da Silva, contou que desde janeiro foram já transfundidas “no terreno” quatro pessoas, “dois estão em recuperação completa da sua autonomia e capacidade, uma das doentes faleceu aos 30 dias de internamento, já nada teve a ver propriamente com o traumatismo em si, e a outra tinha lesões que não eram compatíveis com a vida”.

“Acredito que estamos a dar um primeiro passo com muito futuro para melhorar a sobrevida das pessoas. Ou seja, estamos a testar, a provar, que fazer isto é seguro em Portugal. Acho que no futuro muitos outros carros e equipas médicas poderão ter isto também ao seu dispor. Acredito piamente que podemos mudar aquilo que é o trauma, os acidentes de viação, os acidentes por armas de fogo, armas perfurantes e outras armas brancas, mudar o curso daquilo que são muitas mortes na rua”, referiu.

Até aqui, em Portugal, as transfusões só eram feitas em meio hospitalar à chegada do paciente ao hospital.

Tendo por base um conjunto de pressupostos como a convicção de que a hemorragia exsanguinante (perda de sangue maciça) é a principal causa de mortalidade evitável nos países desenvolvidos, estimando-se que 50% das mortes ocorram nos primeiros minutos após o trauma por hemorragia maciça, num balanço destes seis meses feito à Lusa, Sofia Rocha da Silva disse acreditar que “agora o doente, quando chega ao hospital, do ponto de vista de estabilidade, de maior perda hemorrágica e todas as consequências que advém daí, está muito mais estável”.

“Portanto, dá a ideia que ganha tempo para que se possa controlar aquilo que é o foco da hemorragia (…). Nunca foi possível, até à presente data, termos sangue ou derivados sanguíneos connosco em ambiente pré-hospitalar. É possível agora, porque foram criadas condições”, acrescentou a coordenadora, referindo-se à formação dada a todos os elementos das equipas médicas da VMER, às reuniões periódicas com o INEM para avaliar a segurança do procedimento, e ao investimento da ULSSJ que criou um banco de sangue específico.

“O INEM também nos ajudou no sentido de termos os frigoríficos adequados, temperaturas próprias e testadas, para podermos transportar este sangue. O processo está sujeito a uma série de auditorias e controlos próprios”, descreveu.

Já por considerar que o sangue total fornece todos os componentes sanguíneos em proporções fisiológicas e que o seu uso não só promove mais rapidamente a homeostasia como diminui complicações inflamatórias, a médica do serviço de sangue do Hospital São João Carla Monteiro explicou à Lusa que são precisos mais dadores.

“Neste caso, precisamos de homens do grupo sanguíneo O”, precisou.

Isto porque, explicou, “nem todos os dadores podem participar deste projeto, têm que ser o dadores que tenham poucos anticorpos no seu sangue para se poderem aplicar as unidades sem fazer provas de compatibilidade”.

Em Portugal, em 2023, verificaram-se 1.514.529 ocorrências pré-hospitalares sendo que cerca de 20% eram relacionadas com trauma.

O trauma é a principal causa de morbi-mortalidade na população jovem, com crescente incidência em idades avançadas.

Em Portugal, a maioria dos traumas graves é atendido por equipas pré-hospitalares diferenciadas constituídas por médico e enfermeiro e existe uma Rede de Referenciação de Urgência e de Medicina Intensiva que orienta o doente para as instituições mais adequadas em termos clínicos.

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