PJ apreende 600 mil euros em bitcoins e quatro dias depois o dinheiro desaparece

As 9,72 bitcoins foram transferidas para uma carteira criada no âmbito da apreensão e desapareceram em quatro movimentos. O casal acabou absolvido, o tribunal mandou devolver os ativos e, quase oito anos depois, continua por esclarecer quem lhes conseguiu aceder.

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Um mistério com quase oito anos continua a perseguir a Polícia Judiciária. Um total de 9,72 bitcoins, atualmente avaliadas em mais de 600 mil euros, desapareceu depois de os ativos terem sido apreendidos e colocados numa carteira digital criada no âmbito de uma operação da PJ, em outubro de 2018.

O caso começou numa busca à residência de um casal, em Vila Nova de Gaia. Durante a operação, dois especialistas da unidade de combate ao cibercrime deslocaram-se ao local para transferir as criptomoedas para uma carteira criada para a apreensão. A chave privada necessária para movimentar os ativos foi impressa e passou também pelos sistemas da PJ, segundo o relato de um dos visados à CNN Portugal.

Quatro dias depois, a carteira foi esvaziada através de quatro movimentos. Começava aí uma investigação que, durante anos, não conseguiu determinar quem teve acesso às credenciais e fez desaparecer as bitcoins.

O caso teve uma reviravolta particularmente insólita: o próprio casal acabou constituído arguido, em 2021, por suspeitas de acesso ilegítimo e descaminho. As autoridades realizaram escutas e analisaram contas bancárias, mas não encontraram indícios de que os proprietários tivessem recuperado as criptomoedas.

Em junho de 2022, o Ministério Público arquivou o processo por não ter sido possível determinar, com segurança suficiente, quem facultou o acesso à chave privada ou quem movimentou os ativos. Ninguém foi acusado pelo desaparecimento das bitcoins.

Entretanto, o processo principal prosseguiu e, em 2025, o casal foi absolvido dos crimes de branqueamento agravado e fraude fiscal. O tribunal determinou então a restituição dos bens apreendidos, incluindo as criptomoedas que entretanto tinham desaparecido.

A investigação acabou por atravessar o Atlântico. Segundo o Ministério Público, as bitcoins terão sido depositadas diretamente em três contas de uma plataforma de apostas associadas ao mesmo utilizador, levando as autoridades até ao Canadá. A PJ pediu informação bancária, endereços IP, movimentos de criptomoedas e outros elementos destinados a identificar e localizar o suspeito.

A grande incógnita, porém, permanece: como terá uma pessoa no Canadá conseguido as credenciais necessárias para movimentar criptomoedas que estavam numa carteira criada no âmbito de uma apreensão da PJ?

Um dos proprietários não esconde as dúvidas sobre essa linha de investigação. “Acho que os culpados estão bem mais perto, não é preciso ir ao Canadá”, afirmou à CNN Portugal. Trata-se, contudo, da convicção do visado e não de uma conclusão das autoridades.

O casal admite agora processar o Estado português, embora assegure que a prioridade é recuperar exatamente aquilo que lhe foi apreendido. E rejeita receber o equivalente ao valor que as moedas tinham em 2018.

“Apreenderam-me as bitcoins e eu quero bitcoins”, resumiu um dos visados, recorrendo a uma comparação: seria como apreender um Ferrari e, anos depois, pretender devolvê-lo sob a forma de um Mercedes.

O inquérito foi entretanto reaberto e continua sob investigação e sujeito a segredo de justiça, segundo a Procuradoria-Geral da República. A PJ confirmou igualmente que pediu a reabertura do processo.

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