“A bomba fiscal: o Estado não conduz, mas vai sempre no banco do passageiro… a cobrar!”

Há países onde a bomba de gasolina serve para encher o depósito, mas em Portugal, serve também para encher os cofres públicos e, nesta semana, a velha liturgia voltou a cumprir-se, o gasóleo subiu 15 cêntimos por litro e a gasolina 12 cêntimos, levando os preços médios previstos para 2,169 € e 2,142 €, onde o Governo reforçou em três cêntimos o desconto no ISP, permanecendo a questão, por que razão, quando o petróleo baixa, o preço na bomba parece possuir uma extraordinária vocação para esquecer o caminho de regresso?

O Português comum, esse animal económico que paga antes de perguntar, ouve a habitual ópera bufa, guerra, mercados, margens, cotações, transporte e biocombustíveis, mas só que há números que não precisam de intérprete:
Na gasolina, tomando os valores indicados, temos 0,422 € de ISP e cerca de 0,336 € de IVA, aproximadamente 0,758 € por litro em impostos, cerca de 42% do preço final.
No gasóleo, 0,265 € de ISP e cerca de 0,318 € de IVA representam aproximadamente 0,583 € por litro, cerca de 34%
Depois há uma preciosidade fiscal, o IVA, que incide sobre uma base que inclui o ISP, porque a Portaria de 4 de setembro de 2026, fixa o ISP em 422,04 €/1.000 litros para a gasolina e 265,11 €/1.000 litros para o gasóleo, integrando 87 € e 111 € de CSR, respetivamente, em que a ERSE acompanha a formação dos preços e a transmissão das cotações internacionais.

Em 2023, segundo os valores citados da Unidade Técnica de Avaliação de Políticas Tributárias e Aduaneiras, o IVA associado ao consumo de gasóleo terá gerado cerca de 546 milhões de euros e o da gasolina cerca de 342 milhões, totalizando 888 milhões apenas nestes dois produtos e o ISP continua a ser uma gigantesca torneira fiscal, cerca de 4,07 mil milhões de euros em 2025, enquanto o Orçamento para 2026 previa inicialmente 4,254 mil milhões, ou seja, somando ISP e IVA, a receita pública ligada aos combustíveis ultrapassa confortavelmente os 4 mil milhões e pode aproximar-se dos 5 a 6 mil milhões, conforme preços, consumo e receita efetiva de IVA e isto não é retórica, é aritmética pura e dura.

Ronald Reagan resumiu a caricatura do Estado fiscal: “If it moves, tax it; if it keeps moving, regulate it; and if it stops moving, subsidize it.”, «Se mexe, paga imposto, se continua a mexer, leva regulamentação e se parar, recebe um subsídio.» e em Portugal parece ter aperfeiçoado o método, se anda, taxa, se pára, subsidia, se protesta, cria um grupo de trabalho.

António Leitão Amaro avisou em 2026 que “não há dinheiro para tudo” e, talvez não haja, sobretudo quando chega a hora de cortar, apertar o cinto ou pedir sacrifícios a quem trabalha no Estado, porque, curiosamente, quando a tesoura ameaçou os vencimentos dos próprios titulares de cargos políticos, deputados incluídos, o corte de 5% aplicado durante a Troika tornou-se subitamente um incómodo a eliminar, mas para os restantes funcionários públicos, austeridade, para a classe política, reposição. É esta a matemática peculiar de quem governa, quando falta dinheiro, pede-se esforço aos outros, quando sobra dignidade política por recuperar, recuperam-se vencimentos e, assim, se confirma a velha regra nacional, o sacrifício é sempre patriótico, desde que seja o vizinho a fazê-lo.

E é aqui que esta crónica deixa de ser apenas combustível para a indignação e passa a ser um apelo à responsabilidade, porque desde a Troika, sucederam-se governos, maiorias, geringonças, coligações e promessas de reforma, em que todos falaram das gorduras do Estado, mas poucos tiveram a faca, coragem, para as cortar e, entretanto, o cidadão continua a pagar no posto, no supermercado, no transporte, na empresa e, finalmente, no preço de quase tudo.

Dizia-se antigamente: “Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não percebe da arte.” e os portugueses já perceberam a arte, a conta chega-lhes sempre inteira, pois o problema não é o Estado cobrar impostos, é cobrar muito, gastar muito e explicar pouco.

Por isso, quando a pistola da bomba voltar a apontar para o depósito, lembremo-nos, o petróleo pode vir do Golfo Pérsico, mas uma parte substancial da conta fica em Portugal, porque o Estado não conduz, é certo, mas vai sempre no banco do passageiro… e cobra a viagem

Artigos do mesmo autor

A Europa, essa velha senhora de modos refinados e carteira sempre à beira de um suspiro, acorda novamente sobressaltada com o ruído distante, mas economicamente ensurdecedor, de mais um conflito no Médio Oriente e, como diria Winston Churchill, “os impérios do futuro são os impérios da mente” e, ao que parece, também do barril de […]

Há decisões governamentais que entram na História pela porta principal, outras escapam pela porta do cavalo e evaporam-se na chaminé do ridículo, onde a recente posição do Ministro Adjunto e para a Reforma do Estado, Gonçalo Matias, sobre o Tribunal de Contas deixar de se “substituir à administração” exala o perfume da modernidade administrativa, com […]

Há projectos de lei que nascem discretos, quase envergonhados, como quem pede licença para entrar pela porta do cavalo e há outros que entram de rompante, com a solenidade de quem acredita estar a salvar a República, mesmo que, no processo, lhe aperte a garganta, porque este Projeto de Lei nº 398/XVII/1ª surge assim, embrulhado […]

Portugal habituou-se perigosamente à governação por reacção, onde espera-se que a crise chegue, monta-se o cenário mediático, alinham-se comunicados solenes e entoa-se, em uníssono, o velho refrão, “vamos avaliar”, em que a prevenção é tratada como luxo, a responsabilidade como incómodo e o planeamento como exercício académico, porque entre PowerPoints e relatórios, esquecemo-nos de uma […]

Há sistemas políticos que envelhecem como certos fidalgos de província, mantêm a pose, o discurso empolado e o fato engomado, mas cheiram a mofo institucional, onde o nosso, herdeiro directo do pós-25 de Abril, entrou nessa fase terminal em que já não governa, reage e quando reage, fá-lo como todo o poder decadente, com medo, […]