O pedido relacionado com as gémeas luso-brasileiras não terá sido o único a chegar ao telemóvel de António Lacerda Sales. A investigação ao caso que levou à acusação do antigo secretário de Estado da Saúde revelou várias mensagens de políticos e figuras públicas a solicitar informações ou ajuda relativamente a doentes, pedidos que o então governante encaminhava para Luís Pinheiro, na altura diretor clínico do Hospital de Santa Maria, de acordo com o Observador que avança com a informação.
Entre os nomes que surgem nos registos está Ana Catarina Mendes, atual eurodeputada do PS. Em abril de 2022, Lacerda Sales pediu a Luís Pinheiro que verificasse a situação de um cidadão que tinha dado entrada no hospital durante a madrugada, identificando expressamente a origem do pedido na então ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares. O diretor clínico respondeu praticamente de imediato.
Menos de um mês depois, surgiu uma nova solicitação, desta vez de Edite Estrela, deputada à Assembleia da República (PS). A deputada pediu ajuda relativamente a um escritor que estava hospitalizado no Santa Maria e aguardava transferência. Lacerda Sales voltou a encaminhar o caso para Luís Pinheiro, acompanhando o pedido com informação clínica.
Rita Ferro Rodrigues, filha de Eduardo Ferro Rodrigues (PS), também contactou o governante devido à situação de uma amiga de 38 anos, em estado terminal. Nas mensagens, a apresentadora explicou que tinha conseguido o contacto de Lacerda Sales através de Mariana Vieira da Silva e pediu ajuda para garantir cuidados paliativos adequados. Cerca de 15 minutos depois de receber o pedido através do secretário de Estado, Luís Pinheiro transmitiu informação sobre a situação da doente e a possibilidade de transferência para o IPO de Lisboa, relata a mesma fonte.
Os registos conhecidos mostram, assim, uma ligação frequente entre Lacerda Sales e o então diretor clínico do Santa Maria para obter informações ou procurar respostas a situações que lhe eram apresentadas. A existência destes contactos, por si só, não significa que todos tenham envolvido tratamento privilegiado ou qualquer ilegalidade.
Filho de Marcelo insistiu sobre as gémeas
Entre as mensagens analisadas pela investigação encontram-se também os contactos de Nuno Rebelo de Sousa, filho do antigo Presidente da República, sobre o tratamento das gémeas luso-brasileiras.
Segundo o Observador, os contactos terão começado em novembro de 2019 e prolongaram-se durante 2020. Numa mensagem de março desse ano, Nuno Rebelo de Sousa voltou a pedir a Lacerda Sales informações sobre a evolução do processo, manifestando preocupação com o tempo que estava a passar até à obtenção do tratamento.
É precisamente neste caso que o Ministério Público sustenta ter existido uma atuação ilícita. A acusação considera que Lacerda Sales sabia que, ao encaminhar as comunicações de Nuno Rebelo de Sousa para Luís Pinheiro, estava a influenciar a atuação do diretor clínico por estar em causa o filho do então Presidente da República.
António Lacerda Sales, Nuno Rebelo de Sousa e Luís Pinheiro foram acusados de prevaricação em concurso aparente com abuso de poderes. Daniela Martins, mãe das gémeas, foi acusada de burla qualificada, num episódio relacionado com cadeiras de rodas e não com a obtenção do Zolgensma. Os arguidos beneficiam da presunção de inocência até decisão judicial definitiva.