Cardiologistas pedem reforço dos centros de referência do SNS

Os diretores de três dos principais serviços de cardiologia defenderam hoje o reforço dos centros de referência já existentes nessa área no SNS, alegando que criar novas estruturas fragiliza o modelo em vigor desde 2023.

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“Importa sublinhar que o problema do acesso [dos utentes] não resulta da falta de centros, nem de incapacidade técnica instalada”, alertaram os responsáveis dos serviços de cardiologia das unidades locais de saúde (ULS) Santa Maria, em Lisboa, Coimbra e Gaia e Espinho numa carta aberta.

Esta posição de Fausto Pinto, diretor do Departamento do Coração e Vasos da ULS Santa Maria, Lino Gonçalves, diretor do Serviço de Cardiologia da ULS Coimbra, e Ricardo Fontes Carvalho, diretor do Serviço de Cardiologia ULS Gaia e Espinho, foi manifestada um dia após a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, admitir a abertura de novos centros de referência para a cirurgia cardíaca, desde que os peritos concordem.

Segundo a carta aberta, perante a escassez nacional de profissionais altamente diferenciados, criar ou expandir atividade fora do modelo criado em 2023 “dificilmente aumenta a capacidade real do sistema”, correndo o risco de o fragilizar, fragmentando equipas, enfraquecendo centros consolidados e reduzindo a eficiência global, “precisamente quando o esforço deveria concentrar-se onde já existem estruturas funcionais e resultados comprovados”.

Os médicos alertam ainda que as dificuldades do acesso resultam, sobretudo, de constrangimentos organizacionais, financiamento desajustado e limitações persistentes no modelo público de contratação de recursos humanos, problemas “bem identificados e para os quais já foram apresentadas várias soluções concretas”.

“Desta forma, o expectável seria o reforço dos centros de referência existentes, permitindo, assim, ganhos imediatos, sem criar nova despesa estrutural permanente e dispersão de escassos recursos altamente diferenciados”, alegam.

Os três responsáveis realçam também que um “extenso trabalho” já foi feito no país, culminando na publicação da Rede Nacional de Referenciação Hospitalar para a área cardiovascular, em 2023, resultado de uma avaliação técnica independente e consenso institucional, alinhado com as melhores práticas internacionais.

Fausto Pinto, Lino Gonçalves e Ricardo Fontes Carvalho salientam que o acesso dos utentes à cardiologia não começa quando necessitam de cuidados mais diferenciados, nem se mede apenas pelo tempo de espera cirúrgico, mas sim por terem uma primeira consulta, um diagnóstico atempado e uma correta orientação de tratamento num tempo clinicamente útil.

A carta aberta alerta para um “ponto raramente discutido” e que está relacionado com o facto de, em vários centros que hoje apontam listas de espera noutras instituições, persistirem “atrasos significativos” no acesso à primeira consulta de cardiologia.

“Quando a porta de entrada falha cria-se a pressão artificial dos níveis mais diferenciados de cuidados”, referiram os especialistas, para quem discutir a questão das listas de espera para cirurgia antes de falar sobre os problemas que existem nas primeiras consultas é “analisar apenas o efeito, não a causa”.

Quatro serviços de cardiologia do Norte alertaram para as listas de espera, dizendo que “há doentes em risco” e, na semana passada, em entrevista à RTP, o diretor de serviço de Cardiologia da ULS Santo António revelou que 10 doentes morreram nos últimos três anos devido a uma “lista de espera demasiado elevada” só neste unidade de saúde.

Na sequência desta denúncia, na sexta-feira, o Ministério da Saúde informou que tinha ordenado uma “avaliação urgente” e disse que a denúncia sobre mortes associadas a eventual ausência de resposta está a ser “analisada com prioridade”.

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