Especialistas denunciam falta de manutenção da obra hidráulica do Baixo Mondego

Vários especialistas em hidráulica denunciaram esta sexta-feira, em Coimbra, a falta de manutenção da obra hidráulica do Baixo Mondego e o antigo presidente do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) Carlos Matias Ramos considerou a obra abandonada.

© Patrícia de Melo Moreira/Lusa

“Esta obra está abandonada, não há outra palavra”, afirmou esta tarde, na sessão pública “Levar a sério o desafio. Análise das cheias do Mondego de fevereiro de 2026”, que decorreu debaixo do dique do viaduto da A1, que ruiu em fevereiro.

O especialista em engenharia hidráulica sustentou que a obra hidráulica do Mondego, tal como qualquer obra de engenharia, tem de ter “observação contínua e manutenção, nomeadamente numa obra desta natureza, com diques de terra que assentam com o tempo”.

“Em engenharia, temos de ter o princípio do projeto, da observação e da manutenção e, sem estes fatores em pleno, estamos a contribuir para a sua destruição”, disse Matias Ramos, que participou, enquanto técnico, no projeto da obra hidráulica do Baixo Mondego.

O antigo presidente da Ordem dos Engenheiros atribuiu a falta de manutenção à inexistência de um mecanismo estruturado, “que se ajuste à necessidade de incorporar estes conceitos na estrutura que tem a responsabilidade disso”.

Matias Ramos defendeu que o rio Mondego tem de ser avaliado no seu todo e ser tratado “com carinho, porque é um ativo da região Centro”, e possuir uma estrutura de acompanhamento em permanência.

Por seu lado, o antigo reitor da Universidade de Coimbra, Fernando Seabra Santos, apontou três razões para o dique do viaduto sobre a A1 ter ruído, uma delas a falta de manutenção na desmatação, com os diques repletos de vegetação e árvores de todo o porte e raízes profundas que desestabilizam estruturalmente os diques e são responsáveis por mais 20 centímetros do nível do caudal.

Em segundo, apontou o não funcionamento do dique sifão imediatamente a montante da zona onde ruiu, que se tivesse funcionado “tinha correspondido a uma diminuição de nível de 50 a 60 centímetros”.

“E em cima disso temos a diminuição da largura útil do leito do canal por força dos detritos que se acumularam nas pontes”, sustentou Seabra Santos, académico que desenvolveu a carreira científica na área da engenharia de recursos hídricos, hidráulica e ambiente.

Ainda de acordo com o antigo reitor da Universidade de Coimbra, em Portugal existe “uma dificuldade e falta de capacidade de percebermos que a manutenção é essencial à continuação do funcionamento de qualquer infraestrutura”.

Na sua intervenção no painel, Seabra Santos defendeu dragagens de três em três anos no leito do Mondego a montante da Ponte Açude, para a retirada de 30 mil metros cúbicos de areia.

Por seu lado, António Carmona Rodrigues, presidente do conselho de administração do grupo Águas de Portugal, especializado em engenharia hidráulica nos Países Baixos, defendeu um modelo de gestão que garanta a sustentabilidade da obra hidráulica do Baixo Mondego e apelou a que se conclua o projeto, naquilo que ainda falta.

O presidente da APA, Pimenta Machado, não ignorou que se tratou de um ano “verdadeiramente excecional”, em que Coimbra bateu o recorde de precipitação entre 01 de outubro e 13 de fevereiro, e frisou que a boa gestão da barragem da Aguieira impediu males maiores.

No final da sessão, a presidente da Câmara de Coimbra, Ana Abrunhosa, disse aos jornalistas que a principal lição é repor a obra hidráulica do Baixo Mondego e, sobretudo, completá-la.

“Sabemos que estamos a falar de uma obra de engenharia com 40 anos, que naturalmente pode ter algumas atualizações, mas o que os cientistas nos mostraram hoje é que a obra pode ser reposta, tem de ser concluída e, sobretudo, a importância da manutenção e nessa manutenção participarmos todos – APA, autarquia e agricultores”, sustentou.

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