A operação decorreu em 26 e 27 de março, na sequência de uma investigação iniciada a partir de denúncias de cidadãos, recebidas desde meados de 2025, que apontavam uma empresa de consultoria de projetos por facilitar adjudicações através de subornos, segundo um comunicado da Comissão Independente contra a Corrupção (ICAC, na sigla em inglês).
As investigações revelaram que a consultora teria obtido contratos de consultoria com honorários “irrazoavelmente baixos” e, posteriormente, teria recorrido a intermediários ligados a grupos da máfia chinesa, conhecidos como tríades, para manipular os processos de concurso por meios corruptos.
As tríades surgiram entre 1842 e 1930, quando membros de sociedades secretas da China emigraram para Hong Kong e formaram organizações de ajuda mútua.
Um dos casos centra-se num grande projeto de renovação de um empreendimento nos Novos Territórios, com um valor estimado em mais de 160 milhões de dólares de Hong Kong (17,7 milhões de euros).
A consultora conseguiu o contrato de consultoria por um preço “muito abaixo” do razoável, estimado pela ICAC em 0,5% do total.
“Embora o concurso em questão ainda se encontre na fase preparatória, acredita-se que a intervenção precoce da ICAC tenha impedido que as práticas corruptas se concretizassem e tenha impedido a infiltração da tríade no grande projeto de renovação do bairro”, segundo o comunicado da ICAC.
Num outro processo consta que a consultora obteve, em 2022, o contrato de consultoria para a renovação integral de outro edifício na ilha. O projeto foi posteriormente adjudicado por 20 milhões de dólares de Hong Kong (2,22 milhões de euros) a um empreiteiro, com vários milhões classificados como despesas duvidosas.
As autoridades detiveram 10 homens, entre os quais o proprietário e um inspetor registado da consultora, bem como intermediários com antecedentes de ligações às tríades. Além disso, foram detidas outras 32 pessoas em rusgas paralelas.
A intervenção ocorre no auge de uma investigação aberta na sequência do devastador incêndio em 26 de novembro no complexo residencial Wang Fuk Court, que custou a vida a 168 pessoas.
A polícia deteve 22 pessoas por suspeita de homicídio voluntário, além de outras seis por suspeita de fraude, todas ligadas ao incêndio.
O ICAC deteve ainda outras 23 pessoas, incluindo consultores, empreiteiros e membros da associação de condóminos do complexo, por suspeitas de homicídio involuntário, negligência grave e corrupção, incluindo possíveis manipulações nas propostas e utilização de materiais não ignífugos.
A tragédia desencadeou um intenso escrutínio sobre as práticas no setor da manutenção de edifícios, onde se têm acumulado queixas sobre concursos opacos, custos excessivos e riscos para a segurança dos vizinhos.