PORTUGAL, DESPERTA “Infelizmente”

Uma deputada eleita pelo PCP lamentou o desaparecimento da União Soviética.
“A União Soviética, infelizmente que há muitos anos terminou, infelizmente, porque de 
facto foram anos extraordinários para o povo.”

Entre os anos 30 e o início da década de 1950, milhões de pessoas passaram pelo sistema de campos que Estaline consolidou. O Gulag manteve uma sociedade inteira submissa através do medo, do trabalho forçado e do silêncio. Estimam-se entre 1,2 e 1,7 milhões de mortos.

O Holodomor, nome dado à grande fome provocada pelo regime soviético que confiscou alimentos, cereais e sementes aos camponeses ucranianos, enquanto impedia muitas pessoas de abandonar as aldeias à procura de comida. Estimam-se entre 3,5 e 5 milhões de vítimas entre 1932 e 1933. É um número difícil de imaginar.

Durante o Grande Terror de 1937–1938, os próprios arquivos soviéticos registam cerca de 682 mil execuções.
As deportações em massa de chechenos, tártaros da Crimeia, alemães do Volga e coreanos soviéticos para regiões remotas da União Soviética provocaram centenas de milhares de mortos. Muitos morreram durante as viagens. Outros nos anos de exílio forçado que se seguiram.

Na Primavera de 1940, milhares de oficiais, médicos, professores e outros membros da elite polaca foram executados em Katyn e noutros locais pelo regime soviético.
Ao longo das primeiras décadas do regime soviético, milhares de líderes religiosos foram presos, executados ou enviados para campos de trabalho numa tentativa para destruir referências religiosas, culturais e históricas fora do controlo do Estado.

Quando se fala em barbárie europeia do século XX, o regime nazi surge inevitavelmente como o exemplo máximo. Por isso, seria impensável ouvir um deputado dizer, num parlamento democrático, que o Terceiro Reich foi “extraordinário para o povo alemão”. No caso da deputada comunista houve polémica durante alguns dias. Depois, o tema desapareceu do debate público.

O Livro Negro do Comunismo aponta para perto de 100 milhões de vítimas associadas aos regimes comunistas do século XX, número superior ao total estimado de mortos da Segunda Guerra Mundial, entre os 70 a 85 milhões. Mesmo depois de tudo isto, nunca existiu para o comunismo soviético um momento de condenação internacional comparável ao que aconteceu com o nazismo em Nuremberga.

O Estado Novo foi uma ditadura marcada pela censura, repressão política e perseguição de opositores. É precisamente por isso que causa estranheza ver um partido que condena legitimamente a ditadura portuguesa continuar a tratar com indulgência um regime responsável por perseguições, deportações, fome organizada e milhões de mortos.

Como pode uma deputada eleita em democracia normalizar a ideia de que um regime destes possa ainda ser descrito como ‘anos extraordinários”?
O mínimo que a deputada deve às vítimas, às suas famílias e aos portugueses que a elegeram é um pedido de desculpas público.
Até agora, esse pedido não chegou. Infelizmente.

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