Redes de narcotráfico já entraram no rio Tejo, alerta Polícia Marítima

O comandante-geral cessante da Polícia Marítima, vice-almirante Nuno Chaves Ferreira, alertou que o narcotráfico está a mudar de estratégia e já utiliza as águas interiores portuguesas para transportar droga.

© GNR

Em entrevista ao Correio da Manhã, o responsável revelou que, durante o último ano, a Polícia Marítima conseguiu, pela primeira vez, intercetar e apreender embarcações de narcotraficantes no rio Tejo.

“O narcotráfico já não está distante das costas, já entra dentro das nossas águas interiores”, afirmou Chaves Ferreira, sublinhando que esta evolução demonstra a necessidade de reforçar a vigilância marítima e de manter uma presença permanente no mar.

Segundo o comandante, uma das principais prioridades do mandato que agora termina foi precisamente “devolver a Polícia Marítima ao mar”, aumentando o número de operações e a capacidade de fiscalização ao longo da costa portuguesa e nas zonas ribeirinhas.

Foi neste contexto que, pela primeira vez, a força policial conseguiu intercetar embarcações suspeitas de estarem ligadas ao tráfico de droga já no interior do rio Tejo, uma realidade que, segundo o responsável, evidencia a adaptação das redes criminosas à crescente pressão exercida pelas autoridades no mar.

Apesar de lembrar que a investigação do narcotráfico cabe à Polícia Judiciária, Chaves Ferreira sublinha que a Polícia Marítima desempenha um papel decisivo na deteção e interceção destas embarcações sempre que as encontra durante as operações de patrulhamento.

“Conseguir capturar estas embarcações dentro do Tejo mostra aos narcotraficantes que nós estamos presentes e que não podem andar à vontade”, afirmou.

O vice-almirante considera que o reforço da cooperação entre a Polícia Marítima, a Polícia Judiciária e a Marinha tem permitido melhorar a resposta ao fenómeno, embora admita que existe margem para intensificar a partilha de informação entre as diferentes forças de segurança.

Durante os últimos 12 meses, a Polícia Marítima apostou também na utilização de novas tecnologias para reforçar a vigilância dos espaços marítimos, nomeadamente através de sistemas não tripulados e de ferramentas de inteligência artificial capazes de analisar grandes volumes de informação recolhida durante as operações.

Segundo Chaves Ferreira, estas tecnologias permitem acompanhar os movimentos das embarcações suspeitas e reconstruir os seus percursos, fornecendo dados importantes para as investigações criminais.

O comandante destacou ainda uma operação realizada há cerca de duas semanas, considerada inédita, que colocou em simultâneo no mar embarcações de todos os comandos locais da Polícia Marítima, desde Caminha até Vila Real de Santo António.

A iniciativa pretendeu demonstrar a capacidade operacional da força e reforçar a presença policial ao longo de toda a costa portuguesa, numa estratégia orientada para a prevenção e não apenas para a reação aos crimes.

No balanço do mandato, Chaves Ferreira reconheceu, no entanto, que a Polícia Marítima continua a enfrentar limitações ao nível dos recursos humanos. Atualmente conta com cerca de 530 efetivos, quando um estudo realizado durante o seu mandato concluiu que seriam necessários aproximadamente 750 agentes para responder plenamente às exigências operacionais.

Apesar das dificuldades, o responsável destacou a incorporação de 75 novos elementos durante o último ano e defendeu que o reforço gradual dos efetivos, aliado ao investimento em tecnologia e à presença permanente no mar, será determinante para responder às novas ameaças que afetam o espaço marítimo português, entre elas o crescimento do narcotráfico nas águas nacionais.

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