Moradores e comerciantes de Sintra exigem medidas contra caos do turismo em excesso

Moradores e comerciantes de Sintra estão descontentes com o turismo descontrolado e exigem medidas contra o excesso de visitantes, que acusam de causar o caos no trânsito, prejudicando a mobilidade e a segurança dos residentes na vila.

© D.R.

Para exigir medidas “sustentáveis” da Câmara Municipal de Sintra, no distrito de Lisboa, a associação QSintra iniciou um protesto com cartazes que os moradores e comerciantes estão a colocar nos edifícios, principalmente nas zonas que são ponto de passagem para os turistas que diariamente se deslocam para o centro histórico.

Nesta manifestação visual lê-se que “a lotação está esgotada” em Sintra, que “não é a Disneylândia”, nem um “parque de diversões”, mas uma vila com um património classificado pela UNESCO, onde o excesso de turismo está a causar o caos nas ruas, prejudicando “residentes e visitantes” e que pode, em caso de acidente, por “em risco pessoas e bens”.

Madalena Martins, moradora e responsável pela associação QSintra, disse que o trânsito que bloqueia as vias de acesso ao centro da vila “durante a maior parte do dia” é apenas a questão “mais visível” de um problema “mais vasto” e sistémico “de falta de planeamento e de falta de competência na gestão do território e da falta de controlo dos recursos turísticos”.

“É evidente que o turismo é muito importante para Sintra. Ninguém pode negar isso. Agora, tem de ser um turismo que seja um fator de desenvolvimento e que seja benéfico para o sítio, enquanto património vivo e habitado, e não um turismo que, pelo excesso e pelo descontrolo, acabe por destruir aquilo que quer explorar”, afirmou, salientando que o caos acaba por causar também uma experiência negativa nos visitantes.

A responsável realçou que os residentes estão a ser desistir de viver neste “inferno” diário, em que quem precisa do carro para ir às compras, ao médico ou trabalhar fica “bloqueado” à ida e à vinda.

“E o despovoamento leva à descaracterização, não é? E a descaracterização, a prazo, também leva à desvalorização dos sítios enquanto destinos turísticos de qualidade. E é isso que está a acontecer em Sintra. E só não vê quem não quer”, considerou.

Na Rua do Roseiral, Martinho Pimentel, morador em Sintra há 23 anos, já sabe que o seu acesso à rua está dificultado entre as 10:00 e as 16:00.

É a esta hora da manhã que chega à estação da Portela de Sintra o primeiro comboio com turistas, que depois se deslocam numa agitação de TVDE e ‘tuk tuk’ por ali acima em direção ao Palácio da Pena e à Quinta da Regaleira, porque “é mais barato ir de TVDE do que de transportes públicos”, até que a via acaba por ficar entupida pelas viaturas, em passo de caracol.

“Sinto-me mais confinado do que durante o confinamento da [pandemia de] covid-19. Tinha mais facilidade nessa altura em sair de casa do que neste momento. […] E isto é constante em todos os moradores e também com os comerciantes”, afirmou.

Martinho Pimentel sublinhou que os comerciantes que estão mesmo no centro da vila, onde os turistas passam a pé e sempre compram qualquer coisa, não se queixam, mas “todos os que já se afastam um bocadinho daquele centro” são prejudicados.

“O comércio tradicional desapareceu praticamente daqui. Não resta praticamente nada, resta uma papelaria e uma mercearia. De resto, nem farmácia”, acrescentou.

Isabel Pinto Coelho, que há 15 anos tem o restaurante São Pedro 26, a caminho do centro, confirmou que o excesso de turistas é mau para o seu negócio.

Muitos dos clientes habituais, aqueles que sustentam o restaurante o ano inteiro, acabam por desistir quando o trânsito não lhes permite chegarem à hora da reserva.

“Foi o pior ano que eu tive de verão aqui, o pior ano de todos a nível de clientes, porque não é um sítio em que passem turistas a pé para ficarem. Portanto, é francamente mau para mim, a todos os níveis. E depois acho que é horrível uma pessoa ter uma esplanada linda e ter de comer com poluição”, disse.

Segundo a comerciante, a situação está a fazer desistir também os residentes estrangeiros, que compraram casa para terem ali qualidade de vida, mas descobriram que a vila idílica não é como imaginaram.

“Ninguém aguenta isto”, afirmou, enquanto apontava para casas de vizinhos estrangeiros que deixaram de morar ali.

Outro dos grandes receios é a segurança, visto que as ruas estreitas e preenchidas de carros dificultam o acesso dos meios de socorro.

“Nem ambulâncias, nem carros de bombeiros passam. E há já exemplos disso, de acidentes que acontecem e as pessoas estão uma hora ou mais à espera de serem socorridas”, disse Madalena Martins.

Isabel Pinto Coelho defendeu que deveriam ser construídos mais parques de estacionamento fora da vila, com autocarros elétricos, mais pequenos, a transportarem as pessoas para o centro.

Já Martinho Pimentel considerou que, além da gestão pontual de fluxos e direções de trânsito, seria ideal que as camionetas de transporte público passassem a ser tendencialmente gratuitas para acesso aos monumentos.

“Há maneiras de se conseguir dinheiro para isso. O número de visitantes é tão grande em Sintra que se os palácios tiverem uma taxa do tipo taxa turística facilmente conseguirão financiar uma coisa dessas. E basta que não seja mais caro ir de transporte público do que de TVDE para já haver pessoas a tomarem essa decisão. Mas, neste momento a decisão racional é ir de carro para cima”, disse.

Madalena Martins sublinhou ainda que há “vários fatores que até podiam ser facilmente controlados”, nomeadamente um, que “parece evidente”, que é informar melhor os visitantes.

“Não há informação, nem nas aplicações de turismo, nem em lado nenhum, nem na IC19 [Itinerário Complementar 19]. Não há nenhuma informação sobre o trânsito em Sintra, sobre como é que as pessoas devem vir, onde é que as pessoas podem parar, se é que podem. […] Portanto, a incompetência da Câmara é, a todos os títulos, gritante”, considerou.

A associação espera que “toda esta expressão de protesto e de preocupação” manifestada pela campanha dos cartazes nas fachadas “tenha algum reflexo” nas políticas da Câmara Municipal de Sintra.

“O que também tentamos fazer é alertar todas as entidades que são responsáveis, de qualquer maneira, pela gestão deste território, para a situação em que aqui se vive. E falo do Turismo de Portugal, do Ministério da Cultura, do ICNF [Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas], da Agência Portuguesa do Ambiente. Todos esses organismos têm aqui responsabilidades e têm que se articular com a Câmara para encontrar soluções sustentáveis”, afirmou.

Madalena Martins destacou ainda um relatório do ICOMOS (uma organização não governamental constituída por especialistas e associada à UNESCO), que considerou Sintra como sendo um local que tem “património em risco”.

“Acreditamos que, se viesse cá uma missão da Unesco, com certeza que encontraria muitas, muitas razões para, pelo menos, alertar as autoridades e ameaçar com a desclassificação”, disse.

Sobre este assunto, a Câmara de Sintra remeteu a Lusa para um comunicado divulgado anteriormente, no qual assegurou que tem procurado adotar medidas de “equilíbrio” entre os benefícios do turismo e o seu impacto no centro histórico.

A autarquia recordou ainda que, além do condicionamento do trânsito no centro histórico, construiu um parque de estacionamento periférico com 550 lugares junto à estação da Portela de Sintra e está a construir outros dois no Ramalhão, junto à principal entrada na vila, um dos quais com 500 lugares e outro para viaturas e autocaravanas.

Em 2023, os Postos de Turismo de Sintra atenderam 522.176 turistas.

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