Tomada de posse do Presidente da República: Quando a diplomacia se ajoelha ao pragmatismo

Há momentos em que a política diz muito mais pelo que faz do que pelo que afirma. A tomada de posse de um Presidente da República é um desses momentos. É um ritual de Estado que simboliza os valores de uma democracia, a forma como um país se vê a si próprio e aquilo que quer representar perante o mundo.


Mas às vezes, nesses momentos solenes, a coerência fica à porta.
Entre os convidados da cerimónia esteve João Lourenço, Presidente de Angola. A presença de chefes de Estado estrangeiros não é novidade nestas ocasiões. O problema não está na diplomacia, está na mensagem que se transmite quando se normaliza, sem qualquer desconforto aparente, a proximidade política com regimes cuja governação continua a levantar sérias dúvidas sobre transparência, separação de poderes e combate efetivo à corrupção.
Angola continua a figurar em posições pouco recomendáveis nos índices internacionais de perceção da corrupção.

A Transparency International tem sido clara ao longo dos anos: o país enfrenta problemas estruturais no funcionamento das instituições e no controlo do poder político e económico.

Apesar do discurso reformista apresentado por João Lourenço desde 2017, o debate internacional permanece: estamos perante reformas profundas ou apenas uma redistribuição de poder dentro do mesmo sistema?
Seria expectável que uma democracia consolidada como a portuguesa mantivesse, pelo menos, uma certa prudência simbólica nestes momentos.


Mas não foi isso que aconteceu.
António José Seguro chegou mesmo a saudar publicamente a presença de João Lourenço na cerimónia. Uma saudação que, para muitos, soou menos a diplomacia e mais a uma normalização política que levanta perguntas desconfortáveis.
Ainda mais simbólica foi a postura de Marcelo Rebelo de Sousa. O agora ex-Presidente da República reagiu com visível deferência às declarações do líder angolano sobre a relação entre Portugal e as antigas colónias, numa atitude que muitos interpretaram como mais um episódio de uma diplomacia excessivamente complacente.
Portugal gosta de apresentar-se como um país que defende valores. Transparência. Estado de direito.

Combate à corrupção. São palavras repetidas em discursos políticos, relatórios internacionais e campanhas eleitorais.
Mas os valores de uma democracia não se medem apenas pelo que se diz.

Medem-se, sobretudo, pelo que se tolera.
E quando uma democracia se mostra excessivamente confortável com determinadas presenças nos seus momentos institucionais mais simbólicos, a pergunta torna-se inevitável: estamos perante diplomacia… ou perante complacência?


A política externa exige pragmatismo. Mas uma democracia que abdica de afirmar os seus princípios em nome da conveniência corre sempre o risco de parecer menos firme do que aquilo que proclama.
E há gestos que dizem mais do que discursos.

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