Para o coordenador cirúrgico da Unidade de Transplantação Pulmonar da ULS São José, Paulo Calvinho, este número representa a maturidade de um programa iniciado em 2001, “de forma bastante pioneira, com grande coragem”.
O primeiro transplante foi realizado pelo cirurgião Henrique Vaz Velho e o programa foi depois reestruturado e consolidado pelo cirurgião José Fragata e pela pneumologista Luísa Semedo, que atualmente dirige a unidade juntamente com Paulo Calvinho.
“Cada transplante foi um transplante especial”, afirmou o responsável da Especialidade de Cirurgia Torácica, considerando que “os números redondos” servem para “celebrar, analisar e perceber quais os caminhos futuros” e o percurso feito até agora.
“São marcos de reflexão, fundamentalmente. Mas o [transplante número] 500 representa um transplante como o 499 e como o 450. E isto, para nós, como médicos, é importante”, resumiu.
O transplante que assinalou a marca dos 500 foi realizado em Francisco Borges, 67 anos, que sofria de fibrose pulmonar idiopática e chegou ao transplante numa fase já muito avançada da doença.
“Este doente teve algumas intercorrências durante o seu percurso até chegar ao transplante pulmonar. Teve até eventos cardíacos isquémicos e teve de sair da lista de espera, enquanto fez o seu tratamento da doença coronária”, explicou.
Segundo o cirurgião, o desafio clínico deste doente foi conciliar “a agressão da cirurgia com o coração que deveria aguentar todo este procedimento”.
Apesar da gravidade da situação, o doente mantinha autonomia nas atividades da vida diária, embora necessitasse de oxigénio de longa duração, dia e noite, e apresentasse já importantes limitações da atividade diária.
Francisco Borges ainda está internado, num processo mais prolongado do que o habitual, porque está num “processo de reabilitação ainda intensivo dentro do hospital para poder ter alta”, mas “está bem” e a perspetiva é de ter “alta muito em breve”.
A evolução positiva foi confirmada à Lusa por Francisco Borges, que descreveu o transplante como uma mudança profunda na sua qualidade de vida: “É gratificante, é rejuvenescedor, a pessoa sentir que já respira sem nada daquilo e que tem capacidade de respirar muito mais”.
O agravamento da doença levou-o a procurar acompanhamento especializado em Lisboa, primeiro no Hospital Egas Moniz e depois no Hospital de Santa Marta, onde acabou integrado no programa de transplantação pulmonar.
Entrou na lista de espera e aguardou cerca de três anos. Nesse período foi chamado três vezes, mas o transplante acabou por não se realizar.
Apesar da dimensão da intervenção, um transplante pulmonar duplo, garante que nunca teve medo. “Há sempre aquele receio do que é que vem depois, mas eu vou para as operações como se fosse lanchar com um amigo. Não sinto nervoso nenhum”, contou.
Quanto à recuperação, Francisco confessou que “o primeiro mês e meio foi complicado” e agora “também é difícil”, mas está confiante de que o esforço vale a pena.
“Já tenho força suficiente para me aguentar em pé, para fazer o dia-a-dia normal, para vir aqui ao hospital, para fazer as refeições, para fazer a fisioterapia”, salientou.
A quem enfrenta a possibilidade de um transplante pulmonar deixa uma mensagem de esperança: “Há que lutar muito, mas também a vida depois do transplante é outra”.
O cirurgião Paulo Calvinho salientou que a experiência acumulada nos últimos anos possibilitou alargar os critérios de aceitação de dadores e tratar casos cada vez mais complexos.
Foi um “caminho longo” que começou com “dois, três, quatro transplantes por ano” e agora são sempre acima de 40. No ano passado, foram realizados 46 transplantes pulmonares e, este ano, já foram efetuados mais do que no mesmo período de 2025.
“Acho que vamos chegar rapidamente à fasquia dos 50, 60 transplantes por ano. Pelo menos esse é o nosso desafio”, disse, comentando que o programa está “numa curva ascendente”, com 508 transplantes já realizados.
Apesar desse crescimento, a “grande limitação” é o número de dadores para responder à lista de espera.
“Neste momento, temos para transplante pulmonar 67 doentes”, indicou, salientando que o hospital dispõe de condições para aumentar a atividade caso existam mais pulmões para transplantar.
Paulo Calvinho destacou, contudo, a evolução da rede nacional de doação, afirmando que os hospitais têm vindo a identificar mais potenciais dadores e a melhorar os cuidados prestados nas unidades de cuidados intensivos, permitindo aproveitar um número crescente de pulmões.
Outro indicador positivo é a sobrevida média dos doentes transplantados que internacionalmente está nos 6,7 anos, aproximadamente e, em Portugal, nos 8,6 anos, afirmou, atribuindo esse resultado à seleção criteriosa do recetor mais adequado para cada órgão.
Paulo Calvinho quis deixar um agradecimento aos dadores e às respetivas famílias, afirmando: “Não há transplantação sem doação. É impossível. É este gesto altruísta que muda a vida de muitas pessoas, melhora a qualidade de vida e salva centenas de pessoas por ano”.