A entrada massiva de migrantes em Ceuta pode ter deixado um rasto que vai muito além da crise migratória. Relatórios militares citados pelo jornal espanhol El Español apontam para a alegada permanência na cidade de 72 elementos ligados às forças marroquinas, suspeitos de integrarem uma estrutura organizada a operar no terreno.
De acordo com o jornal, pelo menos três relatórios identificam 22 alegados membros dos serviços de informações de Marrocos e outros 50 militares, distribuídos por diferentes pontos de Ceuta. Uma fonte de alta patente do Exército espanhol assegura que estes elementos permaneceram em território espanhol após a entrada massiva de migrantes registada a 30 de julho.
As suspeitas levantadas pelos documentos são graves. Segundo as fontes militares citadas, a alegada estrutura teria como missão vigiar os movimentos das forças espanholas, testar a capacidade de resposta das autoridades e fomentar um clima de insegurança e instabilidade na cidade.
Os relatórios descrevem ainda uma possível cadeia de atuação. Elementos ligados aos serviços de informações identificariam os alvos, os militares destacados no terreno transmitiriam as instruções e grupos de delinquentes seriam depois utilizados para executar determinadas ações. Entre os episódios analisados estão ataques contra soldados espanhóis, incêndios e ocupações de imóveis. Não existe, contudo, confirmação oficial pública de que estes incidentes tenham sido ordenados ou coordenados pela alegada rede.
As suspeitas remontam à crise de 30 de julho, quando milhares de pessoas atravessaram a fronteira entre Marrocos e Ceuta, muitas delas a nado ou contornando o molhe do Tarajal. A dimensão dos acontecimentos levou posteriormente o Governo espanhol a declarar em Ceuta uma situação de interesse para a Segurança Nacional.
No início de setembro, recorda o jornal espanhol La Gaceta, um outro relatório, elaborado pelo Centro Nacional de Imigração e Fronteiras da polícia espanhola e enviado à Audiência Nacional, já dava conta da identificação de agentes marroquinos, uniformizados e à paisana, durante os acontecimentos. O próprio documento ressalvava, porém, que os elementos recolhidos não permitiam atribuir responsabilidades individuais pela organização da entrada massiva.
As novas informações atribuídas aos relatórios militares elevam agora o nível das suspeitas: de uma atuação na fronteira para a eventual permanência de dezenas de elementos ligados às forças marroquinas em território espanhol.