Douro dá arranque às vindimas em ano “tranquilo” e de aumento de produção

O Douro deu o arranque à "festa" das vindimas e por toda a região a paisagem pinta-se de gente que culmina um ano de trabalho "mais tranquilo" na vinha e em que se perspetiva um aumento de produção.

© LUSA/PEDRO SARMENTO COSTA

As vindimas são o ponto alto da região demarcada e regulamentada mais antiga do mundo e culminam um ano de trabalho árduo nas vinhas.

“Estamos no início, mas os primeiros indicadores são altamente promissores”, afirmou à agência Lusa Rui Soares, presidente da ProDouro – Associação dos Viticultores Profissionais do Douro.

O responsável fala num ano vitícola “relativamente tranquilo”, sobretudo quando comparado com 2020, que classificou como “desafiante” e em que foi “muito mais complicado produzir uva”.

No ano passado doenças, escaldão da uva e stress hídrico traduziram-se numa quebra de produção, que se fixou nas 200 mil pipas de vinho (550 litros cada).

“Tivemos uma primavera amena e um início de verão também muito ameno, com temperaturas normais para a época, sem excessos, e isso fez com que, agora, no início da vindima vemos, de uma forma geral, as vinhas a respirar saúde, vemos as vinhas bem do ponto de vista sanitário, bem do ponto de vista da folhagem, verdes, viçosas e com a uva em excelente estado de maturação”, afirmou Rui Soares.

Em resultado de tudo isto, para este ano perspetiva um aumento na ordem dos “10 a 15% na produção”.

A previsão de colheita do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) aponta para um aumento de 20% na produção de vinho no Douro.

“Um ano de desenvolvimento normal, com fenómenos de granizo muito localizados. O míldio e o oídio não tiveram impacto significativo na produção. Prevê-se boa qualidade da produção”, apontou o IVV.

Álvaro Martinho, diretor de viticultura da Quinta das Carvalhas, da Real Companhia Velha (RCV), centra as atenções nas vinhas que se estendem desde o rio Douro ao alto da encosta, no concelho de São João da Pesqueira.

À Lusa afirmou que este “é um ano bom”, com um bom regime hídrico que faz com que as vinhas estejam “confortáveis”, e que antevê um “nível de produção médio” e de “excelente qualidade”. No entanto ressalva que as próximas semanas são “determinantes”.

Nesta altura cortam-se algumas castas para vinhos brancos ou tintos, ficando para mais tarde as uvas para o vinho do Porto.

“Tem que haver uma recolha seletiva ou cirúrgica de cada casta para este tipo de vinhos”, explicou o responsável.

É um trabalho sem teto, feito debaixo do sol quente, que começa manhã bem cedo e que se irá estender pelo mês de setembro.

Numa vinha com cerca de 100 anos, de inclinação acentuada e ladeada dos tradicionais muros de xisto, Dina Barroco, de 29 anos, corta as uvas e orgulhosamente diz que este é o resultado de todo o ano de trabalho.

Trocou o emprego numa fábrica de queijo pela agricultura porque disse ser mais recompensador e está há três anos nas Carvalhas. “Gosto, já estava habituada, por isso não custa”, salientou.

Maria José, 48 anos, contou que tem alturas em que o trabalho é “um pouco duro”, mas garante que “se aguenta bem” e que gosta de fazer um “pouco de tudo”. “Tem terrenos que custa mais um bocadinho e tem que ser tudo de forma manual, com os homens a acartar. Noutras vinhas já vai o trator e é mais fácil”, referiu.

Célia Gomes, 45 anos, trabalha na quinta há 15 anos e disse que o seu trabalho preferido na vinha é a poda, embora destaque que a vindima “é o fruto do ano todo”. “Temos que o colher, é o nosso ganha-pão”, frisou.

Arcindo Ferreira, 45 anos, nasceu “debaixo das videiras” e, por isso, gosta do trabalho na terra e conta que conduz o trator “com extremo cuidado” pelos terrenos íngremes. “É preciso muita cabecinha para sabermos o que andamos aqui a fazer”, acrescentou.

A Quinta das Carvalhas tem cerca de 40 pessoas a trabalhar anualmente, a maioria das quais são mulheres.

“Fomos pioneiros no tratamento igual por género”. Desde 2002 que o salário é pago de igual forma para homens e mulheres e esta, para Álvaro Martinho, é uma questão de “igualdade e de justiça”.

A propriedade tem 150 hectares de vinha, um terço dos quais são vinhas tradicionais e 30 hectares têm entre 70 a 100 anos. “São vinhas que nós teimosamente e de uma forma estratégica vamos preservar porque as massas vínicas dão para fazer vinhos de extrema qualidade e são um património histórico”, sublinhou.

Em 2021, a vindima fica novamente marcada pela pandemia de covid-19 e pela dificuldade em recrutar trabalhadores.

“A falta de mão-de-obra é um problema recorrente, estrutural da região. Historicamente, o Douro nunca teve mão-de-obra suficiente para a vindima, tivemos sempre necessidade de recrutar fora da região, nas zonas limítrofes e este ano não foge à regra”, referiu Rui Soares.

O recrutamento é feito em zonas “cada vez mais distantes” e há também o recurso a mão-de-obra estrangeira.

E porque a uva não espera, a prevenção da covid-19 é a palavra de ordem nas vinhas e adega. Este ano repetem-se procedimentos já implementados em 2020, como, por exemplo a proibição de visitas nas adegas e, segundo o presidente da ProDouro, a vacinação dá também “outro conforto”.

Últimas de Economia

As dormidas em estabelecimentos de alojamento turístico registaram um novo valor recorde de quase 3,1 mil milhões na União Europeia (UE) em 2025, segundo dados hoje divulgados pelo Eurostat.
A taxa de juro média das novas operações de crédito à habitação voltou a descer em janeiro, após ter subido em dezembro pela primeira vez num ano, fechando o mês em 2,83%, disse hoje o Banco de Portugal.
Casas vazias do Estado podem ganhar nova vida e servir para responder à falta de habitação que continua a afetar milhares de famílias em Portugal. Essa é a proposta apresentada pelo CHEGA, que defende a recuperação e reutilização de imóveis públicos devolutos como resposta à atual crise habitacional que Portugal atravessa.
Portugal dispõe de reservas para 93 dias de consumo, num cenário de disrupção, indicou a ENSE, ressalvando que as importações nacionais não têm exposição a Ormuz nas quantidades de mercadorias adquiridas e transportadas.
A referência europeia para o preço do gás natural, o contrato TTF (Title Transfer Facility) negociado nos Países Baixos, subiu mais de 33% por volta das 09:40 (hora de Portugal Continental), justificado pela nova onda de ataques no Irão.
O índice de produção industrial registou uma variação homóloga de 1,2% em janeiro, 0,5 pontos percentuais (p.p.) inferior à observada em dezembro, divulgou hoje o Instituto Nacional de Estatística.
A dívida pública na ótica de Maastricht, a que conta para Bruxelas, aumentou cerca de 6,1 mil milhões de euros em janeiro, para 280.857 milhões de euros, segundo dados hoje divulgados pelo Banco de Portugal (BdP).
A bolsa de Lisboa negocia hoje em baixa, com 15 títulos do PSI a descer, orientados pelos do BCP (-4,33% para 0,85 euros), e com os da Galp a subir 5,68%.
A inflação aumentou para 2,1% em fevereiro de 2026, ficando 0,2 pontos percentuais acima da variação de janeiro, estimou hoje o Instituto Nacional de Estatística (INE).
A bolsa de Lisboa negociava hoje em alta, com o PSI a subir para um novo máximo desde junho de 2008 e com a EDP Renováveis a valorizar-se 2,82% para 13,51 euros.