Défice de sono atinge mais de metade da população e é problema de saúde pública

Mais de metade dos portugueses tem défice de sono, um problema de saúde pública que tem razões socioeconómicas e que representa um risco de surgimento de doenças metabólicas e cardiovasculares, alertou hoje o especialista Joaquim Moita.

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“Podemos concluir, com alguma segurança, que mais de metade dos portugueses dorme menos de sete horas” por dia, o mínimo recomendado para um adulto, adiantou à agência Lusa o pneumologista, que preside à Assembleia-Geral da Associação Portuguesa de Sono (APS).

A propósito do Dia Mundial do Sono, que se assinala na sexta-feira, o ex-diretor do Centro de Responsabilidade Integrado de Medicina do Sono da Unidade Local de Saúde de Coimbra adiantou que, no caso de um adulto entre os 18 e os 65 anos, é recomendado que durma entre sete e nove horas por dia.

“Tudo o que é menos de sete horas falamos em insuficiência de sono”, alertou Joaquim Moita, que atribuiu esse défice a uma “questão de natureza socioeconómica que Portugal tem e que não está a ser fácil de mudar”.

“Temos a imposição social de nos levantarmos cedo para trabalhar e para estudar, um hábito muito nórdico. Mas, em contrapartida, temos a televisão, as atividades sociais e mesmo trabalho até à meia-noite, hábitos do sul da Europa”, salientou o pneumologista.

Depois de defender a realização de um “grande estudo” sobre a quantidade, mas também a qualidade do sono dos portugueses, o especialista alertou para a situação concreta das crianças, a quem são recomendadas nove a 11 horas de sono diárias, mas que “têm de se levantar muito cedo” para irem para a escola, acabando “por se deitarem às 11 horas ou mais, com insuficiência de sono”.

Além disso, os portugueses vivem numa “sociedade iluminada, explosiva, alimentada por dispositivos eletrónicos”, sublinhou o presidente da Assembleia-Geral da APS, que alertou ainda para a iluminação LED que emite radiação azul e que elimina “completamente a produção de melatonina, uma hormona fundamental para que a pessoa possa adormecer”.

Reconhecendo que a insuficiência de sono é “sem dúvida” um problema de saúde pública em Portugal, Joaquim Moita salientou que se trata também de uma doença que, ao longo do tempo, é um fator de outras patologias metabólicas, como a diabetes e obesidade, e cardiovasculares, caso de enfarte do miocárdio, arritmias e insuficiência cardíaca.

O pneumologista referiu também que os portugueses ainda enfrentam dificuldades de acesso a cuidados médicos nesta área, defendendo que a solução pode passar por um modelo envolvendo mais a Medicina Geral da Familiar.

“Há coisas que podem ser resolvidas logo num centro de saúde. É a minha opinião que resulta da minha experiência”, realçou o médico.

Sobre o surgimento no mercado de dispositivos que permitem monitorizar o sono, como os `smartwatches´ e os `smart rings´, Joaquim Moita referiu que “não deixam de ser importantes”, mas não substituem a consulta médica e os exames específicos para esta área.

No âmbito do Dia Mundial do Sono, que se assinala a 13 de março, a APS associou-se à campanha global da World Sleep Society, com o mote nacional “Dormir bem para viver melhor”, com várias iniciativas previstas.

A associação sublinha que o rigor nos horários do sono é tão vital para a saúde como a alimentação ou o exercício físico, uma vez que é repouso que o corpo atravessa ciclos essenciais de recuperação física e cognitiva.

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