Há uma frase que Luís Montenegro repete com a convicção de quem certamente, nunca precisou de esperar numa urgência. “O SNS hoje responde mais e melhor do que no passado.” Acredito que foi proferida num tom delicado e atento de quem governa sem sobressaltos, sem confronto com os números sobre a saúde que todos os dias são capas de jornais.
A declamação podia ser apenas de “perceção política”, mas parece que é mesmo um truque de altruísmo e ilusionismo, em que os números acabam por lhe estragar a farsa.
Quando a Aliança Democrática (AD) chegou ao poder, em abril de 2024, havia 1.565.880 portugueses sem médico de família. Dois anos depois de estarem no governo, esse número é ainda mais alto, passamos para 1.601.018 utentes sem médico de família. E aqui não podemos citar a (bela) herança socialista deixada, até porque estes números são resultado de uma produção própria, de políticas da AD.
O mesmo Governo que prometeu, por escrito, no seu programa eleitoral, médico de família para todos até ao final de 2025. Em março de 2026, teve a Senhora ministra da Saúde que admitir que essa meta não será cumprida nem em 2027! Ora Senhor Diretor Executivo do SNS foi mais indelicado, referindo que: “As listas de espera são algo com que vamos ter de viver.” Repita-se devagar. O responsável máximo pela gestão do SNS disse, em voz alta e sem pedir desculpa, que o país terá de se habituar à sua própria doença crónica. Ou seja, passamos das promessas de cura à analgesia e, para isso foi preciso dois anos.
Vamos agora a outros dados, no final de 2025, mais de 1,08 milhões de utentes aguardavam consulta de especialidade — um aumento de 13,8% face ao ano anterior. Mais de 264 mil aguardavam cirurgia. A cirurgia oncológica fora dos prazos garantidos e por agendar quase quadruplicou num único ano: de 148 casos em dezembro de 2024 para 577 em dezembro de 2025. Para estes doentes, a espera é um desespero, que leva mesmo à morte!
Portugal é hoje, segundo o «Health at a Glance 2025» da OCDE, o país com o maior número de episódios de urgência de toda a organização — mais do dobro da média. Este resultado, mérito seja dado, não é por culpa da AD, mas de anos e anos de desinvestimento do Partido Socialista no SNS. Os donos e senhores de um serviço gratuito para todos, foram precisamente aqueles que durante anos, olharam para o lado e assobiaram perante o acumular de problemas na saúde. Estes dados são o reflexo de um sistema de cuidados de saúde primários que falha tanto e tão sistematicamente que empurra as pessoas para as urgências como último recurso. Não há prevenção da doença, quanto mais promoção da saúde!
O SINACC — o sistema de referenciação que o Governo prometeu lançar em 60 dias — foi criado por decreto-lei em 22 de janeiro de 2026 e ganhou regulamentação operacional a 31 de março de 2026. A peça central chegou 732 dias depois da promessa de revolução. E quando chegou, trouxe uma anedota: a Portaria n.º 137/2026 duplicou o prazo mínimo para as cirurgias programadas mais graves, de 15 para 30 dias. Ou seja, não há nenhuma revolução a acontecer, não há uma aceleração da resposta, há apenas um alargamento da tolerância ao atraso, maquilhado!
Nas urgências de obstetrícia, o Governo prometeu reforço e prioridade. O que aconteceu realmente foi a “centralização” das urgências no Barreiro e em Vila Franca de Xira, ou digamos antes a “concentração” de problemas! Grávidas obrigadas a percorrer 50 quilómetros até ao Garcia de Orta, quando este hospital já é sabido, que já está em sobrecarga. Os partos em ambulâncias mais do que duplicaram em 2025. Quando o primeiro-ministro diz que o SNS responde melhor, há mulheres em trabalho de parto numa ambulância, que tenho a certeza que discordam.
Na saúde, já sabemos que as finanças não são nossas amigas, porque o que conta não é quantas consultas o sistema fez. É quantas fez para quem realmente precisava, no tempo em que precisava. E nesse indicador — o único que importa para quem está doente — o balanço dos dois primeiros anos da AD é negativo!
Porque temos um Governo que não soube fazer um diagnostico do país, dos problemas e das promessas que eram possíveis de cumprir. Um governo que quando os resultados e os prazos falham, não assume e ainda tenta fazer truques de ilusionismo com discursos e, com aumento de prazos em vez de, mudanças de políticas publicas que já todos percebemos que não funcionam, não pode esperar que a sua avaliação seja positiva.
O SNS responde mais e melhor, diz Montenegro.
Talvez. Para alguns. Em alguns sítios. Em alguns dias.
Como em tudo, no SNS a expectativa também depende da perspetiva.