Em Portugal, discutir a RTP é quase um desporto Nacional, uns decretam-lhe o fim com a leviandade de quem muda de canal, outros defendem-na como relíquia sagrada, intocável e eterna, mas, talvez, a pergunta mais incómoda, por isso a mais evitada, não seja se a RTP deve existir, mas sim que RTP deve existir, pois, como lembrava Winston Churchill, “a verdade é incontornável” e a verdade é que um serviço público que não se reforma transforma-se, com o tempo, numa caricatura de si próprio.
A RTP ainda cumpre uma missão relevante, preservar a língua, promover cultura, informar com responsabilidade, porém, entre a missão e a prática vai uma distância que nem o melhor realizador conseguiria cortar na montagem, onde num mundo digital, fragmentado e exigente, persistir em formatos envelhecidos e dinâmicas internas cristalizadas é condenar-se à irrelevância com pompa institucional.
Mas o problema maior, esse tal elefante cor de rosa, que se passeia pelos corredores com cartão de acesso, é a Independência Editorial, porque um meio público não pode ser, nem parecer, extensão de qualquer poder político, pois Thomas Jefferson já advertia que preferiria “jornais sem governo a governo sem jornais” e, por cá, vamos tendo o pior dos dois mundos, um governo que influencia e um jornalismo que, por vezes, se acomoda e quando a pluralidade dá lugar à uniformidade ideológica, não temos serviço público, temos doutrina com orçamento.
E depois há o dinheiro, essa entidade metafísica que, em Portugal, parece sempre brotar do bolso alheio, pois a RTP vive, em larga medida, do contribuinte, mas comporta-se, não raras vezes, como se o contribuinte fosse um detalhe administrativo, com vencimentos principescos, estruturas pesadas, eficiência discutível, tudo isto num País onde o salário médio não acompanha tais ambições cénicas, não se tratando de demonizar salários, mas de exigir proporcionalidade e, sobretudo, responsabilidade, pois como diria Margaret Thatcher, “não há dinheiro público, há dinheiro dos contribuintes”.
Reformar, portanto, não é um capricho ideológico, é uma necessidade estrutural, com o renovar das equipas, abrir portas a novos criadores, investir em conteúdos digitais, reforçar a RTP2 como verdadeiro bastião educativo, descentralizar produção e representar o País real, não apenas o eixo lisboeta e, sobretudo, diversificar receitas, publicidade responsável, parcerias, mecenato, tudo menos a dependência crónica do Erário Público
O Estado, quando gere, deve fazê-lo com critério e não com complacência, porque financiar não é proteger da exigência, é, pelo contrário, obrigar a resultados e a RTP não precisa de epitáfios prematuros nem de elogios acríticos, precisa de coragem política e lucidez institucional.
Porque, no fim, a questão não é se a RTP deve sobreviver, é se tem condições para merecer sobreviver e, num País onde tantas vezes se confunde permanência com mérito, talvez esteja na hora de recordar que serviço público não é um direito adquirido, é uma Obrigação Diária.