Este ano a habitual – e cada vez mais entediante, patética e irrelevante à medida que o tempo passa – celebração do golpe de Estado de 5 de Outubro de 1910 que levou ao poder, sem qualquer justificação e legitimidade, um bando de terroristas e de assassinos tem a particularidade de ocorrer no contexto de duas efemérides significativas para a reles «República Portuguesa», uma relativa ao seu segundo «capítulo» – os 100 anos da sua implantação, com o golpe de Estado de 28 de Maio de 1926 – e a outra relativa ao seu terceiro – os 50 anos da aprovação, no parlamento do Palácio de São Bento em 1976, da (primeira versão da) Constituição, e que, apesar de ter passado por sete revisões, ainda mantém no seu texto o objectivo de «abrir caminho para uma sociedade socialista» e a obrigatoriedade da «forma republicana de governo» – uma precaução compreensível por parte dos herdeiros políticos, com má consciência, dos criminosos insurrectos de há mais de um século. Uma «lei fundamental» que, claro, é ilegítima, porque não foi ratificada em referendo. Aliás, nunca a «República Portuguesa» nos seus 116 anos de vergonhosa vigência foi ratificada por voto universal, secreto e directo quanto aos seus – diferentes e sucessivos – princípios e instituições principais.
O republicanismo neste país foi sempre mau mas, obviamente, teve momentos mais negativos do que outros, e as discordâncias sobre este assunto são inevitáveis. Porém, e pelo que se pode apreender percorrendo o espaço digital em Língua Portuguesa, há quem não saiba muito sobre a História (básica) de Portugal. Já li que «o Estado Novo foi o pior período da história de Portugal. Ponto final parágrafo.» Disparate. A Primeira República foi pior, e também porque, ao contrário da Segunda, não deixou um legado de efectivo crescimento económico e de construção de infra-estruturas que ainda hoje são utilizadas e fundamentais. E, recuando mais no tempo, temos a guerra civil e as invasões napoleónicas, períodos praticamente contíguos e de grande violência e destruição. Também já li que «os dois piores primeiros-ministros do Portugal democrático foram António Guterres e António Costa.» Evidentemente, não foram. E ressalvas do tipo «consigo reconhecer algumas qualidades no exercício do poder de José Sócrates, que tinha alguma veia reformista» são insuficientes para ocultar o facto de o «engenheiro de domingo» ter sido, efectivamente, o pior, ao mesmo baixo nível de Vasco Gonçalves em termos de destruição económico-social, mas aquele operava em circunstâncias diferentes. A «veia reformista» foi tanta que «reformou» quase definitivamente a existência do Estado português, com uma bancarrota colossal, e estendeu-se ainda à «legalização» do «casamento gay» – que Cavaco Silva, cobarde, não vetou – e à destruição da ortografia portuguesa com a concretização do infame AO90 – que Cavaco Silva, ignorante, iniciou. Aliás, só por estas duas últimas «reformas» Sócrates merece a prisão, independentemente de ele vir a ser, ou não, considerado culpado de corrupção.
É num cenário nacional caracterizado pela preponderância de quatro «i’s» – incompetência (governativa, constante), impostos (que não diminuem), imigração (descontrolada) e insegurança (em crescendo) que a Terceira República se prepara para iniciar as comemorações dos 900 anos da fundação de Portugal. Tal ficou decidido e definido pela Resolução do Conselho de Ministros Nº 149/2026, de 17 de Julho, que identificou neste âmbito quatro acontecimentos fulcrais: 1128, Batalha de São Mamede; 1139, Batalha de Ourique; 1143, Conferência de Zamora; 1179, bula «Manifestis Probatum». Ou seja, a República, através das suas «instâncias oficiais», vai outra vez parasitar a Monarquia, aproveitar-se desta e dos seus feitos para se engrandecer sem o merecer. Situação semelhante já se verificara em 1998 com a Expo 98, que celebrou a viagem de Vasco da Gama cinco séculos antes, mas não em 2015, em que se assinalaram 500 anos da morte de Afonso de Albuquerque e 600 da conquista de Ceuta – o que se compreende na perspectiva dos revisionistas esquerdistas, para os quais as duas efemérides mencionadas, marcos cruciais dos Descobrimentos, são evocativas da «época imperialista» da nação.
Ironicamente, aquela cidade espanhola no Norte de África – que ainda tem na sua bandeira símbolos de Portugal como a coroa, os castelos e as quinas – tornou-se neste ano de 2026 um exemplo de como as relações com os países vizinhos podem ser… problemáticas, e susceptíveis de afectar iniciativas que envolvem dois ou mais parceiros. Marrocos, que em Julho último enviou milhares de pessoas numa autêntica invasão a Ceuta que enfrentou uma resistência reduzida devido à pusilanimidade de Pedro Sánchez e do seu (des)governo em Madrid, vai organizar com Espanha… e Portugal o Campeonato do Mundo de Futebol de 2030. Exactamente: já em plena celebração dos 900 anos da pátria lusa estaremos numa – não muito santíssima – trindade desportiva com as duas nações contra as quais os portugueses mais lutaram na afirmação da sua identidade e da sua independência – e cujas selecções, para cúmulo, eliminaram a nossa nas duas últimas (2026 e 2022) edições do certame máximo do «chuto na bola». Será (mais) um embaraço monumental que devemos «agradecer» à Terceira República…
… Que, não contrariando as suas antecessoras, prolongou o cortejo secular de desgraças iniciado por Afonso Costa e os seus fanáticos em 1908. Sim, há que mudar de regime. Mas uma Quarta República, não! Que se faça da evocação dos 900 anos uma ocasião e um pretexto para um regresso ao espírito e ao modelo originais, devidamente adaptados e adequados à modernidade. No entanto, para tal serão necessários monárquicos convictos e não aqueles que aparentemente se contentam em ser enfeites do sistema. Como um que recentemente expressou conformismo perante a coisa verde e vermelha que é supostamente o supremo símbolo de Portugal. Fiz-lhe saber que eu não tenho «uma relação ambígua com o pavilhão que emergiu da revolução de 5 de Outubro»: desprezo-o contínua e consistentemente, e subscrevo inteiramente a designação de «ignóbil trapo» dada por Fernando Pessoa. Eu nunca irei «assimilar aquela fealdade». Por isso, como é que se pode afirmar que «o facto incontornável é que essa bandeira é hoje unanimemente aceite como bandeira nacional»? Eu não a aceito, e, logo, não há unanimidade.