Ex-primeira-ministra do Bangladesh acusada de massacrar 1.400 jovens

Sheikh Hasina, outrora a mulher mais poderosa do Bangladesh, cai agora como carrasco nacional: um tribunal condenou-a à morte por orquestrar a carnificina que matou 1.400 manifestantes e feriu 25 mil.

© D.R.

A antiga primeira-ministra do Bangladesh, Sheikh Hasina, que governou o país durante 15 anos com um poder quase incontestado, foi esta segunda-feira condenada à pena de morte por crimes contra a humanidade. O tribunal considerou provado que o seu governo ordenou e coordenou uma repressão brutal contra os protestos estudantis de 2024 — uma operação de violência de Estado que resultou em cerca de 1.400 mortos e mais de 25 mil feridos. A sentença, recebida com aplausos pelos familiares das vítimas presentes em tribunal, coloca Hasina — agora refugiada na Índia e procurada pela justiça do seu próprio país — no centro de um dos episódios mais sombrios da história recente do sul da Ásia.

Segundo o The Guardian, a decisão do Tribunal Internacional de Crimes do Bangladesh é inequívoca: a ex-líder “cometeu crimes contra a humanidade por incitação, ordem e omissão em tomar medidas punitivas”. Os juízes concluíram que Hasina autorizou o uso de munição real, drones armados, helicópteros militares e métodos de contenção destinados a provocar “mortes rápidas e exemplares” contra manifestantes desarmados. O processo descreve ainda dezenas de execuções extrajudiciais ordenadas diretamente pela antiga chefe do Governo e centenas de outras perpetradas por forças de segurança instruídas para “neutralizar qualquer resistência”.

A repressão desencadeada no verão de 2024 precipitou o colapso do governo de Hasina, que perdeu o apoio institucional, político e militar à medida que a violência tomava as ruas, avança o La Gaceta. Enfrentando contestação interna e crescente pressão internacional, fugiu para a Índia em agosto, de onde tem negado todas as acusações através dos seus representantes. O governo interino de Daca já solicitou oficialmente a sua extradição, mas Nova Deli mantém silêncio.

A condenação da ex-primeira-ministra — que durante anos foi vista como pilar de estabilidade — tornou-se um caso paradigmático de deriva autoritária. Organizações como a Human Rights Watch e a Amnistia Internacional vinham denunciando desaparecimentos forçados, detenções arbitrárias e a captura política dos tribunais e dos media. A sentença confirma agora, de forma devastadora, que o regime de Hasina evoluiu para uma máquina repressiva destinada a silenciar dissidências.

Em Portugal, o caso gerou reação imediata, com o CHEGA a liderar as críticas. André Ventura classificou a decisão como “um dos maiores escândalos de violação de direitos humanos da última década”, exigindo que o Governo português e a diplomacia europeia condenem sem rodeios o que descreve como “um regime de terror disfarçado de democracia”.

“Sheikh Hasina transformou o Estado numa arma contra o seu próprio povo. Mandou matar estudantes, silenciou famílias e destruiu vidas. Isto não é apenas autoritarismo, é barbárie política”, afirmou Ventura, em declarações ao Folha Nacional. O líder do CHEGA acusou ainda “a esquerda europeia” de permanecer “vergonhosamente calada perante um crime de Estado que fez mais mortos do que muitos conflitos armados”.

Ventura avançou também com exigências diplomáticas: “Quando um governante ordena execuções extrajudiciais e reprime à bala jovens que protestam, a comunidade internacional tem o dever moral de reagir.”

Para o Presidente do segundo maior partido, o caso Hasina revela o perigo dos regimes que “se escondem atrás de eleições enquanto atropelam direitos fundamentais”. “Sheikh Hasina é hoje o rosto do que acontece quando o poder não tem limites. Qualquer democracia séria tem obrigação de condenar isto sem hesitações”, acrescentou.

À medida que o Bangladesh avança nos pedidos de extradição e responsabilização de antigos altos responsáveis, cresce também a discussão internacional sobre como tantos governos ignoraram sinais claros de que o regime de Hasina se estava a transformar numa estrutura de violência sistemática. Se a ex-primeira-ministra acabará por regressar ao país para enfrentar a sentença permanece uma incógnita. Mas uma coisa parece certa: a antiga “Mãe da Nação” ficará para a História não como símbolo de estabilidade, mas como o exemplo mais extremo de como o poder absoluto pode esmagar um povo em nome da ordem.

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