Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços, Seixal, entre sítios patrimoniais europeus mais ameaçados

A Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços, no concelho do Seixal, é um dos sete locais patrimoniais mais ameaçados da Europa escolhidos pela principal rede europeia da sociedade civil dedicada ao património, a Europa Nostra.

© D.R.

A Europa Nostra, representada em Portugal pelo Centro Nacional de Cultura, divulgou hoje a lista dos sete locais patrimoniais mais ameaçados da Europa para 2026, no âmbito do programa “7 Most Endangered”, realizado com o apoio do Instituto do Banco Europeu de Investimento (BEI).

Após o Convento de Jesus em Setúbal ter feito parte, em 2013, da lista da primeira edição dos sete mais ameaçados, Portugal fez parte, em 2014, da segunda edição do programa com os Carrilhões do Palácio Nacional de Mafra, voltando agora a estar integrado na lista final com a Fábrica da Pólvora de Vale de Milhaços, depois de esta ter sido nomeada pelo Centro Nacional de Cultura para ser submetida a este programa.

Com uma história industrial de mais de um século (1896-2001), a Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços é o único sítio em Portugal de reconhecido valor patrimonial onde um sistema original de energia a vapor, conservado ‘in situ’ e em operação, é dado a conhecer.

O sistema de produção de energia mecânica a vapor, constituído por uma caldeira geradora de 1911 e uma máquina a vapor de 1900, é conservado e interpretado em condição operacional mediante o trabalho de um operador com a dupla função de fogueiro e de maquinista.

Este espaço com 13,4 hectares, que é considerado como um dos conjuntos de produção de pólvora negra mais completos e autênticos da Europa, faz parte do Ecomuseu Municipal do Seixal desde 2001 e foi classificado em 2012 como monumento de interesse público mas, apesar disso, segundo a Europa Nostra, enfrenta atualmente uma deterioração estrutural significativa.

Segundo a organização, o colapso dos telhados, as fissuras estruturais das paredes, a infiltração de humidade e a corrosão dos materiais colocam agora em risco tanto os edifícios como as máquinas, em particular na central energética e nas oficinas históricas.

O espaço tem ainda sido alvo de episódios de vandalismo, de danos causados por incêndios e inundações além do crescimento descontrolado da vegetação invasora.

Em comunicado, o Centro Nacional de Cultura explica que estes fatores “colocam este conjunto único — incluindo a sua maquinaria insubstituível — em sério risco, tornando essencial uma ação urgente e coordenada para garantir o seu futuro e o seu potencial como modelo de reutilização pós-industrial sustentável”.

O sítio patrimonial acolhe ainda uma biodiversidade significativa, com 682 espécies inventariadas desde 2020, pelo que a combinação do caráter industrial do sítio com o seu valor ambiental torna-o particularmente distinto no panorama do património pós-industrial da Europa.

As autoridades públicas locais e as instituições culturais, acrescenta a organização, têm desempenhado um papel decisivo na salvaguarda da Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços, tendo a iniciativa de preservação sido liderada pela Câmara Municipal do Seixal, de início em cooperação com o antigo proprietário privado, permitindo a transferência do património móvel integrado para a propriedade pública e a sua incorporação no Ecomuseu Municipal do Seixal.

O Ecomuseu também desenvolveu parcerias de investigação nacionais e internacionais e projetos de valorização da biodiversidade, nomeadamente com a Associação Vita Nativa.

Além da Fábrica da Pólvora de Vale de Milhaços, no concelho do Seixal, no distrito de Setúbal, compõem ainda a lista final dos sete sítios ameaçados a Vila de Katapola e cidade antiga de Minoa (Grécia), o complexo industrial “Blower Hall, Esch-sur-Alzette” (Luxemburgo), o moinho de água de Fábri (Hungria), o Quartel Britânico em Fort Chambray (Malta), a Igreja Santamaria Orlea (Roménia) e a Fábrica de cerveja Weifert (Sérvia).

Os sete sítios foram escolhidos pela direção da Europa Nostra entre 14 casos pré-selecionados com base na sua importância europeia e no seu valor cultural e social, assim como no grave perigo que enfrentam, tendo o anúncio sido hoje feito num evento ‘online’ que contou com a participação de representantes da Europa Nostra, do Instituto BEI e da Comissão Europeia, além dos proponentes e representantes dos locais incluídos na lista.

Segundo o Centro Nacional de Cultura, desde o seu lançamento em 2013, este programa baseado em nomeações tornou-se uma iniciativa fundamental da sociedade civil dedicada à preservação do património europeu em risco, atuando como um catalisador para mobilizar conhecimentos especializados, impedir desenvolvimentos inadequados e/ou garantir apoio público e privado, incluindo financiamento, entre outras formas de assistência.

Cada caso incluído na lista final é elegível para receber uma subvenção do BEI no valor de dez mil euros, destinada a apoiar ações de preservação.

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