40 anos a trabalhar, cancro no pulmão e só 55% de baixa: o retrato de um sistema que corta quando mais é preciso

Doente oncológico com décadas de descontos recebe apenas metade do salário e ainda tem de provar que está doente. Parlamento rejeitou apoio a 100%. CHEGA defende que “quem enfrenta o cancro não pode perder também o sustento da sua família”.

© D.R.

Trabalhou desde os 15 anos. Descontou durante quatro décadas. Enfrentou poeiras, metais pesados e ambientes potencialmente nocivos ao longo de uma vida dedicada ao trabalho. Hoje, com um diagnóstico de cancro do pulmão, enfrenta uma nova realidade, não apenas a doença, mas também um sistema que, em vez de proteger, penaliza.

O testemunho chegou ao Folha Nacional e expõe, de forma crua, a realidade vivida por muitos doentes oncológicos em Portugal. O trabalhador, com 40 anos de descontos e uma carreira como motorista de pesados (incluindo os últimos 12 anos no transporte de sucata para a siderurgia nacional, no Seixal) foi diagnosticado em janeiro de 2026.

Desde então, divide os seus dias entre exames no Hospital Garcia de Orta, em Almada, e a expectativa de iniciar tratamentos de quimioterapia e, eventualmente, radioterapia. Mas há um dado que se impõe com dureza: até ao momento, recebe apenas 55% de baixa por doença natural.

Como se não bastasse, foi convocado pela Segurança Social para uma junta de avaliação de incapacidade — um procedimento que descreve com indignação. “Como se fosse uma coisa para brincar”, lamenta, perante a necessidade de comprovar uma doença já diagnosticada.

Recorde-se que o Parlamento rejeitou uma proposta que previa o pagamento do subsídio de doença a 100% para doentes oncológicos. A iniciativa foi chumbada com os votos contra de PSD e CDS-PP, que suportam o Governo, e com a abstenção do PS.

CHEGA exige baixa a 100%

O CHEGA reagiu ao chumbo da proposta que previa o pagamento a 100% do subsídio de doença para doentes oncológicos, acusando a maioria parlamentar de falhar na proteção dos mais vulneráveis.

O partido liderado por André Ventura defende que os doentes com cancro não podem sofrer cortes no rendimento numa fase marcada por tratamentos exigentes e prolongados. “Quem enfrenta o cancro não pode perder também o sustento da sua família”, sustenta.

O CHEGA considera que a redução da baixa médica representa uma “penalização dupla”, pela doença e pela perda de rendimento e insiste que a Segurança Social deve cumprir o seu propósito essencial: apoiar os cidadãos nos momentos de maior fragilidade.

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