O Ministério do Interior do Reino Unido adotou uma solução tão rápida quanto controversa para tentar controlar o caos instalado no sistema de asilo. Com anos de atrasos acumulados e mais de 100 mil processos por resolver, Londres começou a conceder estatuto de proteção internacional a requerentes sem qualquer entrevista presencial, baseando as decisões exclusivamente num questionário extenso preenchido pelos próprios migrantes, adianta o The Telegraph.
O novo método funciona como um verdadeiro ‘fast-track’ administrativo: o candidato entrega aquilo que o Governo considera “provas suficientes” de identidade, país de origem e motivos de fuga. Se a informação escrita convencer os avaliadores, a decisão é tomada sem que o requerente tenha de prestar declarações face a face. O formulário não esconde a urgência: há “um elevado número de pessoas a aguardar decisões” e, caso sejam apresentadas provas consistentes, o Ministério “pode decidir com base no questionário”.
A mesma abordagem permite, no sentido inverso, rejeitar pedidos sem entrevista sempre que sejam identificadas contradições, inconsistências ou suspeitas de fraude. O modelo está a ser aplicado sobretudo a requerentes provenientes de países com taxas historicamente elevadas de aprovação, numa tentativa de “desentupir” o sistema.
A documentação exigida inclui identificação, fundamentação da fuga, percurso até ao Reino Unido e até historial laboral — um autêntico dossiê biográfico entregue por escrito, sem a habitual validação presencial que durante décadas foi considerada essencial.
A oposição reagiu com dureza. Chris Philp, ministro do Interior no Governo-sombra, acusou o Executivo de “escancarar as portas” e de conceder asilo “sem sequer se dar ao trabalho de ouvir as pessoas”.
Este procedimento, no entanto, não é totalmente inédito. O anterior Governo conservador já o tinha utilizado para tentar reduzir o gigantesco atraso acumulado. E os números continuam impressionantes: até setembro de 2025, o Reino Unido recebeu 110.051 pedidos de asilo, incluindo 39.294 entradas por via marítima — o segundo valor mais alto de sempre.
Apesar da pressão, o Ministério do Interior conseguiu reduzir o número de processos pendentes em 36%, para 81 mil, graças ao reforço do processamento inicial. Mas permanece um ponto sensível: o Governo não esclarece quantas decisões foram tomadas sem entrevista presencial, um dado considerado crucial para avaliar o alcance — e os riscos — do novo sistema.