No meio dos milhares de turistas que diariamente percorrem o centro de Lisboa, há quem tenha por missão passar despercebido. Agentes da PSP à civil misturam-se na multidão, vigiam movimentos, identificam suspeitos e acompanham de perto a atividade ligada ao tráfico de droga. Um trabalho discreto e permanente que, nos últimos dois anos, já resultou em centenas de detenções.
Entre 1 de janeiro de 2024 e 15 de agosto deste ano, 739 pessoas foram detidas por tráfico de estupefacientes no centro da capital, segundo dados da PSP divulgados pelo Diário de Notícias (DN).
Os números revelam a dimensão da operação policial, mas estão longe de significar que o fenómeno esteja controlado. “O problema é que, depois de presas, as pessoas são substituídas no crime”, explica Nelson Silva, responsável pela Área Operacional de Investigação Criminal do Comando Metropolitano de Lisboa.
Mouraria concentra 316 detenções
É na Mouraria que se concentra uma parte significativa da atividade policial. Só nesta zona foram efetuadas 316 detenções desde 2024, fazendo do bairro um dos principais focos do combate ao tráfico no centro de Lisboa.
Ao contrário do que acontece na Baixa ou no Cais do Sodré, onde o movimento turístico assume maior expressão, na Mouraria os compradores são sobretudo residentes, entre os quais pessoas em situação de sem-abrigo e com problemas de dependência. Heroína e canábis estão entre as principais drogas comercializadas.
A realidade encontrada pela PSP contraria ainda a associação entre o tráfico naquele bairro e a população estrangeira. Segundo a polícia, não há indicação de que o negócio da droga na Mouraria seja controlado por estrangeiros.
“São famílias portuguesas muito antigas, em que um vai para a cadeia e outro logo assume a banca”, explica Nelson Silva. Segundo outro elemento policial citado pelo DN, o esquema chega a envolver os membros mais novos das famílias, que começam por desempenhar funções de vigilância e alertar para a aproximação das autoridades.
Um é detido, outro ocupa o lugar
O método é simples e organizado: enquanto uns vendem, outros vigiam. Grupos de três ou quatro elementos podem ficar exclusivamente encarregues de detetar movimentos policiais e dar o alerta perante a aproximação de agentes ou viaturas conhecidas.
Esta capacidade de substituição torna o combate ao tráfico num desafio permanente. A polícia investiga, identifica e detém, mas o negócio rapidamente encontra quem ocupe o lugar deixado vago.
Durante uma operação acompanhada pelo Diário de Notícias, os agentes cruzaram-se ainda com antigos conhecidos das autoridades. Um homem anteriormente condenado garantiu ter abandonado o mundo do crime depois de cumprir sete anos de prisão, reconhecendo perante os polícias que deveria ter seguido os conselhos que lhe tinham dado anos antes.