Em vez de trabalhadores, Moscovo festeja 1.º de maio com blindados capturados

Palco de um dos mais históricos e icónicos desfiles do Dia do Trabalhador a nível mundial, Moscovo tem hoje como grande atração Leopards, Saxon e outros blindados de fabrico estrangeiro capturados na Ucrânia.

© D.R.

É no Parque da Vitória, onde estão desde hoje em exposição 30 carros e outro material de combate capturados às Forças Armadas da Ucrânia, que se junta uma multidão de moscovitas, na ausência do tradicional desfile que conflui para a Praça Vermelha, juntando centenas de milhares de pessoas.

Os visitantes, quase todos munidos de telemóveis ou de máquinas fotográficas, iam fotografando Leopards alemães, carros de assalto M1150 norte-americanos, BMC turcos, Saxon ingleses, Kozak ucranianos ou CV 9040 suecos. No local, um coronel na reserva, Viktor Litovkin, atribui o ótimo estado de conservação em que alguns se apresentam ao “medo” dos ucranianos das forças russas.

“Grande parte das amostras expostas encontram-se em perfeito estado, como se tivessem saído agora da fábrica. (…) Houve casos em que os ucranianos os abandonaram em pleno campo de batalha, e os nossos rapazes deitaram-lhe a mão. Ou seja, as tripulações abandonaram a sua ‘riqueza’ antes do contacto direto, logo que sentiram o cheiro da morte”, vangloriava-se o militar perante os visitantes, entre eles muitas famílias com crianças.

Entre os blindados, o veículo britânico FV432 chama a atenção dos curiosos pelas suas grandes dimensões e grades soldadas à carroçaria, o que motiva um elogio aos soldados russos, no dia do trabalhador.

“As grades foram soldadas para o proteger contra granadas e outros projéteis. (…) Foram simples soldados russos que tiveram esta ideia, já adotada pelo exército israelita no seu tanque Merkava, supostamente o melhor do mundo”, proclamava Litovkin.

Pouco mais de um mês depois do atentado terrorista ao Crocus City Hall, sala de espetáculos na capital moscovita, mantêm-se restrições a grandes concentrações. O Dia do Trabalhador vive-se, assim, sob o signo da violência, e os sindicatos mostram-se conformados com a guerra, iniciada há mais de dois anos com a invasão russa da Ucrânia.

“É evidente que o nosso país vive um momento particular caracterizado pela ‘operação militar especial'”, explicou à imprensa Mikhail Smakhov, presidente da Federação dos Sindicatos Independentes da Rússia, recorrendo à expressão usada pelo Kremlin para se referir à invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022.

“Isso deixa a sua marca em todas as nossas iniciativas. Quando os ataques terroristas às nossas cidades se intensificam, é claro que questões relacionadas com a segurança afetam o programa do 1º de maio”, adiantou.

Num comunicado conjunto das organizações sindicais a propósito do 1º de maio, pode ler-se: “os objetivos dos sindicatos asseguram a estabilidade social na retaguarda, enquanto os nossos soldados defendem na frente a independência do país”.

A última vez que se realizou uma exposição semelhante na capital russa foi há 81 anos: em 1943 foram expostos ao público no Parque Gorky “troféus” de batalhas contra a Alemanha nazi – tanques Panzer, em vez de Leopard.

No Parque da Vitória, os visitantes oscilam hoje entre a satisfação com os aparentes sucessos militares e a saturação com a guerra.

 “É um evento muito interessante. Já houve exposições do género no Ocidente, portanto acho que é uma boa resposta política da nossa parte”, disse à Lusa o jovem Alexandre Sarkissov, recordando os blindados russos russos capturados e exibidos em países como a Alemanha e a Polónia.

“Estamos a mostrar a outras gerações que o armamento militar não é imortal, pode ser vencido”, adiantou.

“Vim ver o armamento que os americanos, ingleses, ucranianos e outras nações estão a fornecer aos ucranianos, para ser utilizado contra os nossos rapazes”, afirmou à Lusa Natália Mikhailova.

“Claro que este certame nos ajuda a compreender. (…) Mas toda a gente está contra a guerra. Esperemos que a paz chegue depressa!”, acentuou.

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