Retornados, do chão do aeroporto para um hotel de cinco estrelas

Milhares de retornados das ex-colónias portuguesas foram alojados em unidades hoteleiras que tiveram de adaptar instalações e funcionários para acolher um número muito maior do que o habitual de hóspedes que traziam sono, fome e traumas na bagagem.

© D.R.

“A forma como chegavam, quando viam um quarto, uma cama, um duche…”, recorda Agostinho Tecelão, 79 anos, hoje reformado, mas que em 1975 era rececionista no Hotel do Mar, em Sesimbra, quando ali chegaram centenas de portugueses vindos das ex-colónias africanas.

Os empregados deste hotel de cinco estrelas foram confrontados com um número muito maior de hóspedes, famílias numerosas que tiveram de caber num quarto, limpezas mais exigentes e um número muito superior de refeições para servir.

“O pessoal aceitou bem e teve de se adaptar”, diz Agostinho Tecelão, que às vezes era olhado de lado pelos colegas, porque ajudava aqueles clientes tão especiais.

E acrescenta: “Foi um período muito difícil para eles. Quando viram uma casa de banho, era como se estivessem a viver um sonho.”

Assim o sentiu Susete Santos, após uma estadia de vários dias no aeroporto de Lisboa, com sandes de mortadela servidas pela Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) a todas as refeições, como ainda hoje recorda.

Na altura com 16 anos, esteve com a família sem tomar banho durante duas semanas e quando chegou ao Hotel do Mar e viu uma cama, tanto ela como os familiares dormiram, mesmo sem comer.

Nos primeiros meses, em que o hotel não recebia turistas, a estadia correu bem, mas no verão, quando estes chegaram, os atritos começaram.

“Eram muitas crianças a brincar na piscina e os turistas não gostavam da confusão. O hotel acabou por dividir as instalações e nós ficámos mais próximo do mar, sem acesso à piscina”, diz.

Outra complicação era a roupa, que as famílias lavavam na banheira, mas que precisavam de estender, o que “dava mau aspeto”, pelo que o hotel pediu para não o fazerem.

De um modo geral, reinava a harmonia, testemunhada em eventos organizados, como uma festa de Natal, com direito a espetáculo, uma ceia especial e prendas para as crianças, compradas com dinheiro angariado num peditório nas redondezas.

Em Sesimbra, e passada a curiosidade inicial, a população acabou por aceitar e integrar estes portugueses que, ainda assim, se queixavam de atitudes discriminatórias, muitas delas partilhadas no jornal O Sesimbrense, que disponibilizava uma página para estes cidadãos escreverem notícias e artigos de opinião.

Ainda assim, nos hotéis – além do Hotel do Mar, também o Hotel Espadarte acolheu retornados em Sesimbra – alguns comportamentos não eram os mais adequados e houve mesmo algumas famílias que foram convidadas a sair.

“Havia gente que se portava bem, mas outros pareciam que nunca tinham saído do mato”, afirma Agostinho Tecelão.

O alojamento em 1.500 unidades hoteleiras foi uma das soluções encontrada pelo Estado português para acolher os retornados das ex-colónias, a par de outras, como cadeias (57), e centros de acolhimento temporário e coletivos.

De acordo com um dos relatórios publicados em 1979 pelo Comissariado para os Desalojados, em meados de 1976 o número de pessoas alojadas através do Estado português em diversos estabelecimentos, desde hotéis de cinco estrelas até casas particulares, era de 72.858 o que representava uma despesa diária para o Estado português de 20 milhões de escudos, o equivalente em valor e moeda atual a 2,7 milhões de euros.

Após o 25 de Abril de 1974 e a independência das ex-colónias portuguesas em África, vieram para Portugal 463.315 cidadãos portugueses, segundo o último recenseamento dos desalojados, realizado em 1977, número atualizado para 471.427, de acordo com o Censos de 1981.

Muitos não retornaram de facto, pois nasceram em África e não conheciam a metrópole. O termo retornado foi definido legalmente para determinar quem tinha direito a apoios do Estado.

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