Academia Johnson continua a fabricar sonhos um ano após a morte do seu mentor

A morte do fundador da Academia Johnson, há um ano, abalou esta casa que apoia jovens de bairros desfavorecidos, mas o desafio foi superado e hoje esta “fábrica de sonhos” continua e forte como nunca, segundo o seu presidente.

©facebook da Academia Johnson

 

“Não podemos negar que a morte do Johnson [o nome por que era conhecido João Semedo] foi um abalo muito, muito grande nas vidas das pessoas que integravam o dia-a-dia da academia”, disse Carlos Simões, acrescentando que “as crianças ficaram quase que anestesiadas durante algum tempo, sem perceber o que estava a acontecer”.

Esta academia, sonhada e concretizada por João Semedo, promove o desporto, o desenvolvimento e a integração social de jovens e crianças dos bairros da zona da Cova da Moura, no concelho da Amadora, mas também de outras zonas.

Diariamente, a organização localizada no Bairro do Zambujal (Amadora) apoia cerca de 200 pessoas, entre crianças, jovens, idosos e famílias, nas suas diferentes dimensões: Prática desportiva, apoio ao estudo, ajuda no âmbito da cidadania participativa e intervenções em contextos de estabelecimentos prisionais.

Johnson era a alma desta organização, sempre presente na vida dos seus utentes, a quem transmitia o seu lema: “Nós somos o que fazemos”.

“Tivemos naturalmente que trabalhar – com as crianças, com as famílias, com os adultos, com os jovens – a reparação, a importância de um luto saudável naquilo que era trazer a vivência diária do Johnson, desde sempre e desde que criou a academia”, afirmou o seu sucessor.

E adiantou: “A perda do Johnson foi uma tristeza, foi um vazio, mas foi também um grande, um grande desafio”, em que “as pessoas, no fundo, deram o seu melhor”.

“Para além daquela dor, as pessoas entregaram-se à causa, ao cuidar dos outros, ao dar o melhor de si em todas as frentes, quer no apoio aos idosos, às famílias, no apoio ao estudo, no acompanhamento das crianças e dos jovens, na cidadania participativa, na música e nos tempos livres, nas férias”, contou à agência Lusa.

Segundo Carlos Simões, “a academia continuou o seu caminho, o seu percurso, de uma forma sólida”, sendo disso prova a existência, pela primeira vez desde a sua fundação, de crianças em lista de espera para ingressarem nesta casa.

“Isto é um sinal claro de que as pessoas reconhecem na Academia a vida, a obra, o sonho que o Johnson criou desde o seu início e que, mesmo com a sua morte, ela persiste e persiste no tempo”, declarou.

Carlos Simões sublinha a importância dos parceiros que desde o início apoiaram a academia terem continuado a estar presentes, com alguns a reforçarem até o seu apoio.

“As grandes parcerias que existiam no tempo de vida de Johnson, foram elas que continuaram a estar connosco”, disse.

“Cada vez mais, nós definimos a academia como uma fábrica de sonhos e, sobretudo, um espaço de fazer acontecer e este acontecer só é possível com as parcerias que temos e com a cumplicidade fantástica das organizações que estão e querem estar discretamente ao nosso lado e que são absolutamente fantásticas”, adiantou.

Inspirador para centenas de crianças e jovens, João Semedo ficou conhecido por assumir a sua passagem pela prisão e disso ter feito uma lição de vida, que procurou transmitir.

Nascido em São Tomé e Príncipe e criado no bairro da Cova da Moura, na Amadora, João Semedo saiu de casa aos nove anos, idade com que se iniciou no mundo da droga, para ir viver nas ruas com amigos.

O vício levou-o depois para o mundo da criminalidade e, aos 18 anos, acabou por ser condenado a uma década de prisão, conseguindo mudar de vida depois de sair da cadeia.

João Semedo trabalhou também com jovens na Associação Moinho da Juventude, na Cova da Moura, e em casas de acolhimento para jovens em risco, e foi motorista na agência Lusa. Lançou, pela Alêtheia Editores, o livro “Estou Tranquilo”, relatando a sua experiência de vida.

Morreu no dia 30 de novembro de 2022, aos 50 anos, rodeado da família.

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