SNS concentrado na doença aguda e nas urgências dificulta acesso dos doentes crónicos

As dificuldades dos doentes crónicos no acesso aos cuidados de saúde é uma das principais queixas da Plataforma Saúde em Diálogo, que lamenta que o sistema esteja muito concentrado no tratamento da doença aguda e nas urgências.

© D.R.

 

“Temos um sistema de saúde muito virado para a doença aguda e para a urgência e pouco organizado em termos daquilo que são as necessidades dos doentes crónicos, que são os grandes consumidores dos recursos do sistema”, lamentou à agência Lusa o presidente da plataforma, no Dia Nacional do Utente de Saúde.

Depois de salientar que a questão do acesso aos cuidados de saúde “é transversal a todos os utentes”, Jaime Melancia adiantou que essa preocupação dos doentes crónicos já foi manifestada à nova ministra Ana Paula Martins, numa reunião que decorreu na última semana.

O presidente da plataforma, que junta cerca de 70 associações de defesa dos doentes crónicos e de profissionais de saúde, salientou que, na prática, pretende que o “acesso seja mais facilitado e que permita que as pessoas tenham acesso aos diagnósticos e aos tratamentos de uma maneira adequada e a tempo a horas”.

“Não nos podemos esquecer que a qualidade de vida do doente terá retorno para a sociedade”, realçou Jaime Melancia, apontando os exemplos de aumento de produtividade e de redução do absentismo.

No Dia Nacional do Utente, o presidente da Saúde em Diálogo, criada em 1998 e com estatuto de IPSS, considerou que outra das preocupações, também já transmitida à ministra, passa por garantir que os hospitais “não criem entraves” à lei que prevê a dispensa de medicamentos hospitalares nas farmácias.

“Muitos doentes deste país têm de ir aos grandes hospitais para serem tratados. Já há esses custos enormes de deslocação e ainda têm de vir também aos grandes centros buscar as suas medicações, quando são de dispensa hospitalar”, alertou Jaime Melancia, para quem é necessário que agora “não se criem mais obstáculos aos doentes para serem tratados a tempo e horas” em proximidade.

À Lusa, o presidente da plataforma defendeu ainda a criação do Estatuto do Doente Crónico, para permitir que “haja uma atenção que é devida” para com esses utentes, e considerou que a falta de médicos de família em algumas regiões do país prejudica o seu acompanhamento clínico.

“Muitos doentes crónicos, depois de terem sido tratados num hospital por um especialista no diagnóstico e nos primeiros tratamentos, deveriam ser seguidos por um médico de família, sem ter necessidade de recorrer aos hospitais”, defendeu.

Jaime Melancia disse também esperar que se mantenham as Unidades Locais de Saúde, recentemente criadas, e considerou ser “consensual” que o diretor executivo do SNS, que apresentou a sua demissão a Ana Paula Martins, “estava a fazer um bom trabalho”.

A plataforma estava a trabalhar com Fernando Araújo na comissão de humanização de cuidados, defendendo que, apesar da sua saída da direção executiva, deve ser mantida a “parte de envolver os doentes nas decisões e não apenas como meros utilizadores do sistema”.

“Nós é que sabemos como lidar com a nossa doença”, salientou Jaime Melancia, para quem os utentes, nas decisões do dia a dia das várias organizações da saúde, são “muito pouco envolvidos”.

No final de 2022, o SNS contava com mais de 10,5 milhões de utentes inscritos.

Segundo os dados do portal da transparência do SNS, estavam inscritos nos cuidados de saúde primários (centros de saúde) 10.333.07 utentes no final de março, menos 163.963 mil do que no início do ano.

Em janeiro, 1.647.700 utentes não tinham médico de família atribuído, número que baixou para os 1.539.222 no último mês.

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