Queda da inflação é maior conquista de Milei na Argentina

A inflação na Argentina chegou a 117,8% em 2024, a mais alta da América Latina, mas desceu 94 pontos em relação a 2023, tornando-se a principal bandeira do Presidente, Javier Milei, mas a valorização da moeda preocupa economistas.

© facebook de Javier Milei

“Os preços continuam a subir, mas menos do que há um ano. As pessoas consomem menos porque perderam poder de compra. A desaceleração dos preços foi consequência de uma paralisação da economia. Muitos dos nossos sócios comerciantes não aguentaram. Cerca de 10% fecharam as portas”, disse à Lusa o vice-presidente da União de Lojas de Conveniência da Argentina, Ernesto Acuña.

A inflação na Argentina deixaria qualquer país normal à beira do caos: foi a mais alta da América Latina, seguida pela Venezuela (85%) e, muito mais atrás, pela Bolívia (9,97%). Porém, os 117,8% de 2024 ficaram bem abaixo dos 211,4% de 2023, tratando-se da maior conquista do governo Milei, que completou o seu primeiro ano.

Os 2,7% de dezembro passado são quase dez vezes menos do que os 25,5% de dezembro de 2023, primeiro mês do governo Milei.

“O problema é que o salário não aumenta nesse ritmo. As coisas aumentam muito mais do que a taxa de inflação diz. A solução é cortar gastos, deixar de consumir. Cortei tudo o que podia e acabei com as minhas economias”, descreveu à Lusa Gabriela Morrone, funcionária numa padaria no bairro de classe média de Villa Urquiza, na capital argentina.

A classe média foi o segmento social que mais pagou a conta do severo ajuste fiscal de Milei, cerca de 5% do Produto Interno Bruto (PIB).

Os salários privados têm recuperado, mas os salários públicos, as reformas e os salários informais acumulam perdas. Em média, o poder aquisitivo dos argentinos diminuiu 16%.

Embora a média da inflação tenha sido de 117,8%, os serviços de água, gás, eletricidade subiram quase 248,2%. Os transportes subiram 137,8%, a educação privada 169,4% e as comunicações 186,4%.

Desde o começo de 2024, o índice caiu vertiginosamente graças a uma rígida política de choque fiscal, monetário e cambial.

No campo fiscal, o superávit foi conquistado porque o Estado cortou por completo a Obra Pública e reajustou salários de servidores e reformas abaixo da inflação. No campo monetário, o Banco Central parou de emitir moeda sem respaldo. E no campo cambial, a moeda argentina foi a que mais se valorizou no mundo (+44%), tornando o país caro. A supervalorização do peso argentino tem servido para ancorar a inflação.

“O problema dessa valorização do peso argentino é que, num contexto de reservas negativas no Banco Central, se houver um choque externo, o valor baixo do dólar incita as pessoas a uma corrida cambial. Esse é um risco que acende luzes amarelas”, disse à Lusa o ex-vice-ministro da Economia e ex-diretor do Banco Central, Gabriel Rubinstein.

“Torna-se, então, ainda mais urgente um acordo financeiro com o Fundo Monetário Internacional”, frisa o economista.

A imensa maioria dos economistas do país adverte sobre as consequências de uma moeda artificialmente valorizada. O ex-ministro da Economia, Domingo Cavallo, calcula uma valorização 20% excessiva. O ex-secretário de Estado de Coordenação Económica, Orlando Ferreres, calcula uma desfasagem de 50% no valor de equilíbrio do peso argentino.

“Ninguém pode negar que o dólar está barato na Argentina. Isso seguramente trará problemas para setores como a indústria têxtil, por exemplo. Várias empresas terão de fechar ou transformar-se. Perdem os operários. Ganham os importadores”, observa Rubinstein.

E a tendência é o encarecimento. Logo depois de conhecido o índice de inflação, o Banco Central anunciou que, a partir de 1º. de fevereiro, vai diminuir o ritmo da desvalorização administrada do peso argentino (crawling peg), passando dos atuais 2% a 1% ao mês.

“O ajuste para o tipo de câmbio continua a cumprir com o papel de âncora complementar das expectativas de inflação”, justificou o Banco Central.

A medida visa acelerar a queda da inflação, mas fortalece ainda mais o peso argentino, encarecendo a produção dos setores de mão-de-obra intensiva e fazendo o país perder competitividade, exportar menos e importar mais. Tudo isso num contexto de desvalorização das moedas dos países emergentes.

Segundo a sondagem mensal do Banco Central entre os principais agentes económicos do país, este ano a inflação na Argentina deve chegar a 25,9%. O governo Milei projeta ainda menos: 18,3%.

Os agentes preveem um crescimento económico de 4,5% do PIB em 2025, depois de uma queda de 3,6% em 2024. O Governo confia num crescimento de pelo menos 5%.

A queda da inflação é a principal bandeira do Presidente Javier Milei para vencer as eleições legislativas de outubro. É também a régua com a qual a população mede o resultado do seu governo. Uma vitória é crucial para Milei somar legisladores para avançar com reformas estruturais.

“A sociedade valoriza a queda da inflação. Não exige que a inflação seja zero. Em termos políticos eleitorais, Milei precisa baixar um pouco todos os meses até as eleições. Pode ser 1,3%, depois 1,2% e assim vai. Na Argentina de hoje, isso é um êxito. Será a bandeira eleitoral do Governo”, apostou Rubinstein.

Últimas do Mundo

Os dois executores do testamento de Jeffrey Epstein propuseram um acordo de 25 milhões de dólares (21,2 milhões de euros) às vítimas do criminoso sexual norte-americano que interpuseram uma ação coletiva contra ambos, segundo uma minuta hoje publicada.
As forças policiais de 16 países africanos detiveram 651 pessoas e desmantelaram redes de cibercrime que extorquiram um total de 38 milhões de euros a centenas de vítimas, anunciou hoje a Interpol.
A polícia do Reino Unido deteve hoje Andrew Mountbatten-Windsor, irmão do rei Carlos III, por suspeita de má conduta em cargo público, noticiaram meios de comunicação social britânicos.
A plataforma de transmissão de vídeos YouTube admitiu que está a sofrer hoje interrupções em vários países, incluindo Portugal e os Estados Unidos.
O Governo de Espanha desbloqueou hoje 7.000 milhões de euros de ajudas a pessoas, empresas e municípios afetadas pelas tempestades das últimas semanas no país.
A Comissão Europeia iniciou hoje uma investigação formal à chinesa Shein por suspeitas de design aditivo, falta de transparência nas recomendações e venda de produtos ilegais na União Europeia (UE), incluindo conteúdos associados a abuso sexual de menores.
Peritos da ONU defendem hoje que os arquivos do pedófilo norte-americano Jeffrey Epstein mostram atrocidades de tal magnitude, carácter sistemático e alcance transnacional que poderiam ser consideradas legalmente como “crimes contra a humanidade”.
A rede social X, anteriormente Twitter, voltou ao normal por volta das 14h30 de hoje, após sofrer uma quebra em vários países uma hora antes, incluindo Estados Unidos, Portugal e Espanha, por causas ainda desconhecidas.
A Comissão Europeia foi alvo de buscas policiais em Bruxelas devido a suspeitas na venda de 23 imóveis ao Estado belga em 2024. A investigação está a cargo do Ministério Público Europeu, que confirmou diligências de recolha de provas.
Dados recentes da agência europeia FRONTEX indicam que, entre 2024 e 2025, mais de 100 mil pessoas entraram ilegalmente em Espanha pelas rotas do Mediterrâneo Ocidental e das Canárias. Cerca de 73% provêm de países sem conflitos armados generalizados.