Depois de quase uma década de investigações, recursos, e manobras dilatórias, José Sócrates começou finalmente a ser julgado. O ex-primeiro-ministro socialista, arguido por corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal, está agora finalmente sentado no banco dos réus. Mas a pergunta que os portugueses fazem não é apenas se é “culpado ou inocente”, mas também como foi possível demorar tanto.
Este julgamento tardio não diz apenas muito sobre Sócrates. Diz ainda mais sobre a fragilidade do sistema de justiça português e sobre a forma como o poder político – especialmente o Partido Socialista – sempre tratou este caso com cumplicidade envergonhada e silêncio conveniente. Durante anos, os líderes do PS tentaram separar o “caso Sócrates” do “legado Sócrates”. Recusaram assumir responsabilidade política, insistindo em frases feitas: “à justiça o que é da justiça”, “não fazemos julgamentos na praça pública”, etc. E assim foram protegendo um projeto político ruinoso, um estilo de governação marcado pela propaganda, pelo favorecimento a grupos económicos e pela degradação da confiança pública nas instituições.
Mas a verdade é simples e dura: José Sócrates não foi um desvio do PS – foi um produto do PS. Foi ovacionado, promovido, defendido. Quando os sinais eram evidentes, os dirigentes socialistas preferiram o silêncio à denúncia. Preferiram a disciplina partidária à verdade. E ainda hoje, com o julgamento em curso, muitos continuam calados. Do outro lado, temos um sistema judicial que falhou. Demorou 10 anos a avançar com um julgamento. Viu a sua credibilidade abalada por decisões contraditórias, fugas de informação, e por um espetáculo de impunidade que deixou os cidadãos revoltados e descrentes.
O maior dano não é apenas económico ou institucional. É moral. Um povo que vê um ex-primeiro-ministro acusado de corrupção a evitar julgamento durante anos começa a perder a fé no próprio Estado de Direito. Hoje, o julgamento de Sócrates é uma oportunidade para fazer justiça.